segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Censura, censores e jornalista na ditadura militar.


As coisas estavam complicadas no país e, por extensão óbvia, para o povo de maneira geral e principalmente para ele que sobrevivia do árduo exercício de escrever.

A censura corria à solta nas redações dos jornais, mas empacava principalmente no que ele escrevia, onde sua coluna fora banida e seu nome defenestrado pelos censores.

Utilizando da solidariedade de poucos colegas, redigia seus textos, violentando o estilo e as idéias, em nome da sobrevivência da família, assinando com um pseudônimo.

Não comparecia à redação e a tarefa de enviar suas matérias diárias era de um malabarismo extraordinário.

Os censores excediam os seus limites ao exigir de tempos em tempos, entrevistas com os jornalistas para uma avaliação, isto é, questionarem sobre suas tendências ideológicas, na base do olho no olho.

O desconforto dessa exigência descabida era uma afronta aos profissionais, mas o poder da censura tinha ultrapassado o ultraje há muito tempo e se submetiam àquelas conversas patibulares, principalmente pela pressão dos donos dos jornais que lutavam diuturnamente para manterem as rotativas a exercerem seu papel, isto é, gravarem nos papéis as notícias possíveis.

Depois de duas desculpas pelo não comparecimento dele, a coisa ficou feia.

Um censor, oriundo de outro Estado, exigiu a presença dele às 09.00 h no dia seguinte, do contrário o jornal não sairia mais nos dias subseqüentes.

O caos foi instalado.

Como nem tudo pode ser contra, o aludido censor não o conhecia e era uma apedeuta (ignorante).

Dois minutos antes da entrevista, entra aquela figura obesa, com um terno cujo prazo de decência havia vencido a pelo menos três anos, aloirado (o cabelo fora tingido) e com uma bengala já desgastada pelo tempo (comprada num brechó) para sustentar a perna esquerda que por conveniência enfraquecera naquela manhã.

Bate à porta do escritório do censor, a melhor sala da redação, e escuta aquele berro: “Entra.”

O censor mede aquela figura dos pés a cabeça, através das lentes garrafais de seus óculos escuros.

E ordena: “Senta aí”.

Ordem dada, ordem obedecida.

Nas mãos encarquilhadas do censor existe um calhamaço de matérias escritas por ele.

Sem nenhuma preliminar que passasse tangenciando as normas da civilidade, questiona: “E aí?”

Foi o suficiente para ele iniciar um discurso escalafobético:

“Senhor, a situação está “gálica”.
Estava descendo a serra (Teresópolis) para chegar aqui no horário pré-determinado e quase não consegui. A “nébula” estava terrível. Não enxergava a um palmo à frente do nariz, e olha que o meu é proeminente - o que já é uma vantagem. Dirigia com atenção “desdobrada”, pois nessa situação tem que ficar com uma “pulga atrás do olho”, não é?
Fui parado pela patrulha rodoviária, apresentei todos os documentos que, aliás, estão em dia por sorte do destino e um safado de um guarda que “denedigre” a imagem da instituição quis dar “uma de perninha de anão”. Eu, que sou um cara “equivocado”, engrossei.
Trabalho duro no jornal e recebo um salário miserável, afinal não pertenço à ”laia” do dono do hebdomadário; moro de aluguel numa casa “germinada”, e na outra, mora minha sogra – olha que desgraça? E eu vou lá dar propina prá guarda? Não. Temos que manter os pilares carcomidos da moralidade, ou não?

O censor, diante daquela exposição destrambelhada, concluiu que aquele jornalista só poderia ser um médium e que suas matérias eram psicografadas, escritas pelos espíritos. Ele que tinha um pavor descomunal sobre as coisas vinculadas ao além não titubeou: suspendeu aquela entrevista imediatamente. No mesmo instante prometeu à sua consciência já bastante comprometida que jamais vetaria qualquer texto produzido pelas mãos manipuladas daquele indivíduo.

Os colegas de redação conhecendo a falta de limites daquele companheiro, um ateu empedernido, o aguardavam ansiosos para saber os detalhes da entrevista-inquisitorial.

Esperaram em vão.

Naquele momento, com seu andar de carcamano e com o indefectível sorriso que mostrava o desalinhamento intermitente de seus dentes, relembrava de sua incontinência verbal durante a entrevista e pensou:

“Com esses censores que transbordam o limite da ignorância... essa ditadura vai longe...”.

Sentou-se diante da primeira olivetti disponível e começou a datilografar o título da matéria que sairia no dia seguinte: “É... a situação está gálica.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário