
A dosimetria fora equivocada para aquele corpo frágil e já extremamente combalido.
O processo foi devastador. A pressão arterial subiu a patamares dantescos, a arritmia cardíaca parecia atingir o limite extremo do órgão e frações de segundos depois, os neurônios foram impactados e uma parcela significativa foi destruída por um insulto cerebral (derrame).
A perplexidade ocupou a mente de muitos que assistiram aquela cena de destruição de uma vida, por um mísero ato inconseqüente.
Tudo, mas tudo decorreu de uma dose mal dosada.
As medidas cabíveis foram tomadas imediatamente, mas a morosidade descabida da Unidade Móvel de Atendimento para chegar ao local, afrontou até mesmo aquelas outras testemunhas oculares que assistiram aquele drama humano, sem esboçar quaisquer resquícios de humanidade, até então.
A desídia do Estado era materializada pela expressão, em letras garrafais, PRONTO ATENDIMENTO, na lataria fria da ambulância que, também, tivera dias melhores.
Chegou ao hospital público e abandonado em uma maca foi a óbito.
Passaram-se dez anos dos fatos acima.
As entranhas do poder judiciário evitaram, por esses anos, expelir o monturo acumulado do inquérito à sentença.
O Boletim de Ocorrência fora forjado; o inquérito policial prosseguiu na ofensa à verdade dos fatos; a promotoria por desídia ou conivência ofereceu uma denúncia canhestra que culminou com aquela ignominiosa sentença prolatada pelo juiz criminal que agravou aquele todo deplorável ao desconsiderar as falhas no auto, ao desqualificar as testemunhas de defesa e desprestigiar as atenuantes, por sentir-se premido pela comoção pública.
A dosimetria da pena foi exageradamente injusta.
O magistrado agrediu a lei, o réu e a justiça, mas em compensação prestou as devidas vênias ao vernáculo, pois, ao extrapolar em sua decisão, atingiu na sua plenitude os dois sentidos etimológicos da palavra (extrapolar), qual seja:
- Tirar a conclusão com base em dados reduzidos ou limitados;
- Exceder os limites do bom senso.
Acusados de denunciação caluniosa, coação no curso do processo e abuso, as autoridades receberam como penas, meras anotações de censura às suas folhas funcionais.
Que país!

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