quarta-feira, 20 de abril de 2011

O destino do Destino

O destino do Destino o aproximava daquela fatalidade que sujeita todas as coisas e todas as pessoas do mundo.

A pressão sofrida de todos os lados, além das de cima e de baixo, o estava levando ao terreno perigoso da depressão. Uma ação imediata era fundamental para interromper aquela caminhada, do contrário o seu final não o levaria a dar com os burros n’água e sim, submergir numa demência total.

Não conseguia compreender a humanidade na sua totalidade, afinal todas as desditas, todos os infortúnios a que estava submetido era colocada de forma miserável na sua cota pessoal.

Era de uma injustiça inominável a expressão definitiva entre as pessoas: “são os azares do destino”. Afinal, não passava de um mero executor de ordens, nada, além disso.

Em função do cargo impingido, seguia estritamente as determinações emanadas que nem sequer eram ditas, verbalizas, mas cretinamente escritas em estilo ímpar: seco e avaro nas palavras.

O comunicado sempre uniforme e sem imaginação, resumia as ordens de seus superiores.

Ordenava sempre que pegasse um determinado vidrinho, num escaninho específico daquela estante cósmica, cujo conteúdo era líquido, com colorações variadas e densidades diversas, mas de substâncias com seus efeitos, muito das vezes colaterais, completamente desconhecidos e finalizava obrigando-o que aspergisse ao primeiro suspiro de vida de um recém-nascido, previamente escolhido, na Terra. Esse processo era repetido para todos os nascituros.

Deprimido, resolveu enviar um memorando cumprindo as relações extremamente hierárquicas daquele sistema, aliás, idênticas às de certo país chamado Brasil. O pedido, apesar dos incontáveis datas vênias contidas no corpo do documento, na essência, solicitava a sua exoneração, em caráter irrevogável.

O documento dormiu na gaveta de um assessor, durante várias unidades de tempo, numa concorrência desleal com o Supremo Tribunal Federal do país acima mencionado.

O despacho com a resposta ao pleito foi monocrático e de um poder de síntese inimaginável: “Negado”.

O Destino, ao receber aquele documento com a negativa sobre o seu pleito, não titubeou: fugiu. E pagou um preço pelo dissenso.

Hoje, adulto, pede esmola numa das esquinas movimentadas de uma grande cidade, portando um cartaz com os seguintes dizeres:

“Senhoras e Senhores,
Sou cego, surdo, mudo, tetraplégico, de nascença.
Não culpo ninguém, principalmente o Destino.
Grato por qualquer colaboração”.

Num certo dia, um alto executivo de uma empresa transnacional ao deparar-se com aquele pedinte e seu cartaz, não titubeia: tira uma foto, sem a devida autorização e sem deixar um mísero centavo.

Chegando ao escritório, ordena à secretária a convocação imediata dos chefes subalternos e projeta aquela imagem.

Passados alguns segundos, com voz empostada faz um discurso, como sempre, desprovido de grandeza e cínico, sobre a auto-estima, a determinação nas ações profissionais e outros blá, blá, blás. Termina com a seguinte assertiva: “lembrem-se, o destino quem faz, somos nós”.

Felizmente, para aquele individuo cujo todo era deplorável em termos humanísticos, não tomou e nem podia tomar conhecimento sobre aquela frase final, caso contrário, teria algum alento para prosseguir com as atividades de seu passado de Destino, caso pudesse reverter o seu destino com a troca das fragrâncias contidas naquele vidrinho a que fora aspergido.

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