
Desde criança o seu desajuste era um prenúncio da vida mais que atrapalhada que levaria na fase adulta. Tudo era uma mera questão de tempo.
E o tempo chegou acrescentando àquele indivíduo cotas adicionais de maldades.
Percorreu todas as uniões e separações possíveis.
Do casamento ao descasamento; da mancebia ao caso mais fugaz; seguia sempre gerando em profusão filhos e os abandonando.
Utilizava-se da mesma frase desumana, a cada nascimento: “eu ponho filhos no mundo e Deus que os crie”. E ia em frente.
Ao ouvir o nome de seu desafeto, o Pai das Trevas, por ser um anjo decaído, ainda possuía o dom da onipresença e gritava mal humorado:
“Tá bom, tá bom, mas não fale o nome (Deus) dele não”. (Logicamente que aquele estorvo não ouvia a repreensão, afinal o Cramulhão estava em outro estágio espiritual).
Depois da reprimenda, o Diabo, com aquela expressão malévola partiu em busca de novas conquistas sabendo que aquele indivíduo já o pertencia.
Aquela figura que de humana só tinha a forma procurou todas as religiões, seitas e associações afins, sempre com intuito de levar alguma vantagem, afinal achava o dízimo ou outro numerário qualquer exigido dos fiés uma heresia a ser gasta apenas entre as autoridades eclesiásticas (homem dedicado ao serviço da Igreja), reconhecidas ou não.
Preteridos por todas, acabou transformando-se em um ateu, por mera retaliação às rejeições sofridas na sua busca por ganhos fáceis.
Com sua falta de sensibilidade também não percebia e não dava a devida atenção aos sinais, e por sinal esse foi o seu erro naquela manhã.
Depois de roubado na pesagem e no preço das latinhas levadas para reciclagem, o que atualmente era seu sustento, dirigiu-se a um boteco de décima-quinta categoria, que ostentava um letreiro meio apagado, mas com letras garrafais (sem trocadilho): “Local de Passagem”.
Fisicamente o bar ficava, numa esquina privilegiada, bem numa encruzilhada de simetria perfeita, onde os despachos de todas as naturezas e propósitos eram ofertados.
O ambiente do bar ressentia, logicamente, a teores alcoólicos desqualificadores, acrescidos de um cheiro quase insuportável de velas usadas.
No meio daquela desordem de bebidas, ovos coloridos, moelas murchas e outros petiscos não declináveis existiam uma infinidade de imagens de tamanhos, funções e cores variadas, onde o reconhecimento das mesmas exigia o aval de um expert no assunto.
Ofegante e sedento adentrou aquele ambiente mortiço, mesmo com a incidência dos raios matinais.
Mal educado, não cumprimentou nenhum dos freqüentadores, que, aliás, já era em número expressivo naquela hora da manhã, e pediu um rabo de galo.
Sem cumprir a ritualística de jogar o primeiro gole para o santo, virou o copo e imediatamente um engasgar inabitual ocorreu e ao aspergir o líquido na sua totalidade, esbarrou numa estátua esquisita que balançou, balançou, mas não caiu.
Pares de olhos incrédulos e arregalados foram dirigidos a ele, recriminando a sua conduta sacrílega e quase simultaneamente, uma avalanche de arrepios foi de encontro a todos aqueles corpos entorpecidos pelo álcool.
O dono do bar, que era vidente, sentiu uma imensa comichão em sua careca.
Trêmulo assistiu um grupo razoável de entidades irem às vias de fatos para saciarem seus desejos, mesmo que fosse por uma mísera gotícula daquela bebida pulverizada por aquele incauto. A maioria ficou a seco e a revolta foi geradora daquele calafrio.
Sabedor que desde o surgimento da beberagem no mundo, aqueles seres incorpóreos saciavam seus desejos apenas e tão somente pela oferta dos ébrios de uma porção de seus vícios, exceção feita apenas em despachos.
Ele, o dono, nada podia fazer para abrandar aquela revolta, aquela cizânia que se iniciava.
Invocado pelo desperdício daquela bebida de qualidade para seu bico, em razão da obstrução estúpida de sua garganta, exclamou: “Que sacanagem, Deus!”
Logo, ao proferir tamanha heresia, o dono do bar foi o único a ouvir aquela gargalhada gostosamente diabólica, intercalada entre baforadas exageradas daquele charuto calibre .51 feito sobre coxas gostosamente femininas.
Trêmulo, diante do Coisa-Ruim, acovardou-se e não fez o sinal da cruz.
Aquela figura inconseqüente continuou a reclamar e agora com parcos recursos que dispunha só poderia apelar para uma cachaça de paladar mais que duvidoso.
Sem alternativa pediu um copo cheio mas enfatizou, cheio até o talo.
Usufruindo com antecedência do prazer daquela queimação que percorreria suas entranhas vazias de coisas sólidas, fez aquele movimento brusco para usufruir até da última gota.
No meio do gesto, um estalo sem qualquer motivo surgiu e em suas mãos ficaram somente fragmentos daquele copo e o líquido anteriormente presente desapareceu diante de seus olhos incrédulos.
O dono foi tomado de pruridos que avançavam agora sobre seu corpo, mas os olhos estavam petrificados vendo o engalfinhamento daqueles seres imateriais, incorpóreos, numa luta fratricida para ingerirem aquela cachaça que não permitiram chegar a escorrer pelo balcão.
O desregrado saltou do banco para protestar, e em frações de segundos beijava aquele chão imundo do boteco, sem identificar o protagonista daquela rasteira.
Uma sobriedade incomum envolveu aqueles corpos entorpecidos e encharcados pelo álcool até a alma naquele momento.
Do medo à chegada do pavor durou frações de segundos para eles.
O desregrado foi envolvido pela aquela corja, agora de sóbrios e recebeu no meio de broncas impronunciáveis, as informações que explicavam aqueles acontecimentos.
Entre a razão que é a faculdade para se chegar a uma decisão ou conclusão pelo raciocínio, ou acreditar nas coisas que não via, mas que há pouco presenciou e sentiu, optou pela terceira via, a de matar seu desejo agora com uma garrafa de marafo que pertencia a um despacho.
Pisou nas oferendas e abriu aquela cachaça de rolha com os dentes e ao cuspir aquele pedaço roliço de cortiça começou a sentir uma tremedeira sem fim e ouvir palavras desconhecidas proferidas em mandinga e sem forças apagou desse mundo.
Hoje, no mundo das trevas, não passa de um terceiro cabo trombeteiro da falange mais desqualificada daquela hoste de Lúcifer, sendo obrigado adicionalmente a carregar nas costas uma listagem enorme com os nomes dos futuros companheiros que hoje ocupam cargos expressivos nos poderes constituídos do Brasil e é esse castigo que ainda não é, mas vai ser, que é a causa de sua revolta.
Afinal, arrependimento sobre sua conduta indigna na vida terrena não existe, mas a sua indignação é ser coagido pelo Tinhoso a conviver eternamente com essas pústulas, esses ladravazes que hoje se locupletam com a desgraça dos deserdados da sorte que habitam em agonia aquele país.

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