terça-feira, 4 de outubro de 2011

Vossa Excelência


Bastava adentrar aquele local e era atendido pelo mesmo profissional que há mais de uma década dedicava-se quase com exclusividade em acatar o seu pedido. Esse jamais fora alterado ao longo dos anos e sempre repetido num tom sóbrio, acompanhado de uma excelente dicção e uma impostação de voz inigualável.

- Bom dia, Excelência – saudou o funcionário.

Jamais houve uma vibração proveniente de suas cordas vocais como resposta aquela saudação diária ao longo dos anos.

Ao cumprimento educado do servidor sempre repetia um mesmo gesto, quase imperceptível, um movimento de cabeça, que sempre era interpretado pelo outro como uma reciprocidade sincera ao seu desejo formulado anteriormente.

Com um andar solene, cabeça erguida e com as costas eretas, dirigia-se ao mesmo local, desde épocas pretéritas que guardava uma distância considerável em relação aos demais clientes.

Servido, mastigava inúmeras vezes o naco da torrada e sorvia com goles mais que avaros o conteúdo de sua xícara que devia ser mergulhada em água fervente ás suas vistas, antes de ser preenchida pelo líquido a ser servido.

Fazia seu desjejum em completo silêncio.

Contudo, naquele dia, após beber o primeiro gole fez um gesto que escapava aos olhos dos mais atentos, mas não do seu atendente a quem cabia o privilégio de atendê-lo.

Prezado - disse Vossa Excelência - essa substância, produto do arbusto da família botânica Rubiácea, encontra-se fora dos padrões, significando que foi delituosamente alterado no seu sabor, posto que não foram atendidos os pré-requisitos básicos, a saber:

- a temperatura ideal para sua preparação não foi observada, sendo superior aos 95ºC;

- com a fervura acima da aludida gradação de temperatura houve a alteração no ph e na acidez da água que ocasiona uma modificação substantiva no sabor do café;

- para agravar essa desídia, ainda fui servido com a infusão fora da temperatura ideal para consumo, a mesma tem que estar em torno de 65ºC, pois acima, além de provocar queimaduras nas membranas mucosas da língua, incita um transtorno adicional no paladar.

Excelência, perdoe-me. Será providenciada, imediatamente, a feitura de um novo café dentro dos padrões estabelecidos – disse o empregado.

Apesar das observações e repreensões terem sido proferidas num tom normal de civilidade, os demais presentes acabaram ouvindo e ficaram perplexos com aquele indivíduo ímpar na forma de agir, no modo de vestir-se e, principalmente, pelo conhecimento externado.

Perplexos, dirigiram-se os olhares entre si, sem jamais ousarem pousar suas vistas na Vossa Excelência, pois, havia ordens expressas para não incomodá-lo sob qualquer pretexto.

Indignado, Vossa Excelência respondeu ao atendente de forma taxativa, definitiva: “Jamais retornarei a esse recinto que fui assíduo por mais de uma década. Isso é uma ignomínia com qualquer cliente”.

As reações dentre os demais clientes foram ambíguas ao verem a postura de Vossa Excelência que demonstrou uma faceta desconhecida, a de possuir um gênio irascível quando contrariado.

Pisando firme, afastou-se do local, envolvido em seus andrajos, mas limpos.
Afinal, Vossa Excelência era um mendigo que vivia naquelas cercanias havia anos e, portanto, incorporado ao local.

Era considerado como um patrimônio do bairro.
Histórico?

Sim – respondo eu – pelo descaso e pela desumanidade de todos ao longo do tempo, pois, era tratado e visto, apenas, como uma personagem, perversamente, adjetivada de folclórica e não como um ser humano necessitado de ajuda, de solidariedade.

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