segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De vencedor a derrotado



Naquela região castigada pela natureza e pela desídia dos homens, as crianças quando sobreviviam eram marcadas por deficiências físicas e às vezes mentais, os poucos que fugiam a regra eram marcados por uma fome ancestral.

Considerando a hipotética lavratura da vida de cada pessoa no Livro do Destino, uma daquelas crianças, um garoto, conseguiu com sua determinação alterar seu destino promovendo uma Errata nas anotações previamente registradas sobre o seu futuro.

Em condições extremamente adversas conseguiu, à custa de extirpar a infância e juventude de sua existência, prover seu sustento e mesmo combalido pelo cansaço da faina diária encontrar resistências para estudar à noite.

Privado de alimentar-se condignamente, a fome sempre escarnecera dele, mas não desistia, sobrevivia, ou melhor, agonizava cotidianamente com uma alimentação infinitamente inferior à franciscana.

Invariavelmente, a composição de sua ração diária era constituída por frações de raspas de rapadura diluídas em água de bica e acompanhada da solidariedade da farinha de mandioca de terceira linha, aquela destinada aos porcos, que aliviava suas entranhas.

Esse manjar dos deuses decaídos era sofregamente ingerido no período definido como jantar pelas classes privilegiadas, as que se regalavam com três refeições diárias.

Sua capacidade e a sua obstinação o tornaram um autoditada em línguas estrangeiras, aprendera inglês, francês, alemão, italiano e espanhol.

Migrara para o Rio de Janeiro, capital da República, prestara um concurso e entrara numa empresa estatal.

Agora com o salário digno procurara os cursos de línguas, especificamente as que dominava e, num período inferior a um ano, recebia os diplomas respectivos.

Em um novo concurso, agora interno, passara para o cargo de tradutor.

A timidez sempre fora sua companheira inseparável e para completar o seu convívio aziago interior, trazia a companhia mal ajambrada de um complexo que concorria somente com o seu corpo que, aliás, era a razão de sua falta de estima.

Baixo, com uma obesidade próxima da morbidez que representava um ajuste de contas com o passado famélico, com uma calvície devastadoramente precoce e com aqueles traços teimosamente repetidos por uma natureza incompetente que identificam todos os rostos dos nordestinos seguia a vida com suas pernas curtas e claudicantes.

A bem da verdade, não era efetivamente uma figura agradável aos olhos, em termos estéticos, entretanto não chegava ao extremo, o da feiúra completa, mas quase.

Em sua solidão provocada pelos males da alma resolvera trocar correspondências, algo comum na década de 50 do século passado, com mulheres que, também por razões diversas procuravam sua outra metade, através desse método não muito ortodoxo.

Em meses, acabara apaixonando-se por uma portuguesa. As trocas de cartas eram intensas e sempre a integridade das folhas redigidas era maculada, às vezes por lágrimas solitárias, mas, invariavelmente, por gotículas de perfumes que acabavam entranhando nas fotografias enviadas por ambas as partes.

Aquela relação intensa entre pessoas ausentes fisicamente chegou ao limite e numa noite insone decidiu-se.

As papeladas necessárias foram reunidas e encaminhadas ao Consulado Português e num intervalo inferior a 20 dias foi comunicado sobre o seu novo estado civil, estava casado, pela procuração interposta.

A ansiedade do contato físico, do primeiro beijo, das primeiras conversas audíveis aumentava com a proximidade do encontro definitivo com sua amada.

No dia da chegada do navio encontrava-se no píer com horas de antecedência. O coração descompassado, a sudorese excessiva, o tremor incontrolável nas mãos eram tributos exigidos pela paixão, segundo sua percepção.

Entendia que o amor, em algum momento, tem o seu calvário próprio e inocentemente achava que suas reações nervosas faziam parte dele e que seria o único. Ledo e ivo engano.

O choque foi imenso. A pessoa com quem casara nada tinha a ver com as das fotografias recebidas e aquele momento foi o marco de seu processo de catatonia e a sua via-crúcis, agora sim, iniciava.

O complexo de inferioridade assumira uma proporção oceânica.

Passara a beber de forma contumaz.

Quando o fazia com os companheiros de repartição, após o terceiro chope sua mente ficava entorpecida, mas sua língua parecia ter vida própria e desatava a falar sobre o trauma do seu casamento e de outros.

Expunha as vísceras de sua alma aos ouvintes que com valores diversos estimulavam que detalhasse suas mazelas, as suas vicissitudes e ele, recatado no cotidiano, as fazia em profusão sob o efeito do álcool.

No dia seguinte, suas amarguras, suas dores eram espalhadas pela empresa sempre de forma desrespeitosa e humilhante, às suas costas.

Em determinado dia, ao adentrar uma sala a sua presença não fora percebida e entre galhofas, um grupo deleitava-se com os comentários desairosos sobre sua pessoa, feitos por um dos colegas de copo da noite passada que expunha a sua vida, as suas agruras, os seus complexos, sempre de forma cruel e desumana.

Destruído moral e psicologicamente, retirou-se como entrara, sem ser visto.

Sua mente, sempre resistindo às águas turbulentas dos traumas, encontrava-se agora exaurida pela tormenta provocada pelos comentários e pelas observações de seus pares.

No dia seguinte, próximo ao horário do almoço pegou sua pasta e dirigiu-se à sala daquela pessoa que o tripudiara.

Para infelicidade do mesmo encontrava-se sozinho, datilografando um parecer, de costas para quem entrava na sala.

De forma silente, abriu a maleta e retirou uma corda. Aproximou-se de sua vítima potencial e em frações de segundos começara a estrangulá-lo.

O ato não se consumara, pois entraram na sala três colegas de trabalho e diante daquela cena dantesca do Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri, evitaram o pior.

O Serviço Médico da empresa fora acionado e ele saíra numa camisa-de-força.

Em um espaço curto de tempo, entrara e saíra diversas vezes daquela instituição que cuidava dos desequilibrados mentais, até que um dia entrara para não retornar nunca mais.

O destino, com sua índole perversa, não admitiu a reescrita, à sua revelia, da ordem dos acontecimentos que deveriam se suceder fatalmente, que acabou por macular o seu Livro com aquela Errata redigida pela determinação daquele menino de outrora.

O destino, esse farsante insensível, não tivera pressa, deu tempo ao tempo, e lavrou, mediante adendo no seu Livro, a sua desforra, tornando aquele detentor de um intelecto privilegiado em portador de uma insanidade mental incurável.

Em outras palavras, o destino na sua soberba impingiu àquele que tentou desqualificá-lo, o outro significado de destino: a “falta de tino”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário