
Criado com princípios opostos aos vigentes era um ser sem estima e que o esforço de ânimo desaparecera há muito tempo.
E por decisão própria, frente à impropriedade dos valores atuais, vivia à margem, ou melhor, lançado à margem do convívio social pela força de suas convicções.
Chegara estender ao limite da sua compreensão o conceito da moral vigente, mas o esforço foi em vão, pois fugia de seu apreço pessoal essa nova regra de conduta nas relações humanas e com um travo de amargor constatara que seus valores seguiram o mesmo destino daquela época que fora criado, o do esquecimento e da desvalia.
A sua perplexidade provinha da moeda corrente e de livre aceitação na sociedade atual, cunhada, com a face do individualismo, e o reverso, com a da insensibilidade humana.
Por alguma razão veio a sua mente às moedas de curso legal de sua época de adolescência, as de mil-réis, que claudicavam por não terem os respectivos lastros em ouro, tornando seus valores de face desfigurados por não refletirem os mesmos valores de compra quando do lançamento à circulação.
Essa lembrança era uma analogia perfeita com os valores vigentes. Essa semelhança de propriedades podia ser considerado um paralelo, entretanto, não era uma explicação.
O curso do tempo tornara obsoleto o seu conhecimento, precária a sua saúde, entretanto, a vileza do tempo, ao contrário que muitos pensam que tudo pode, não tinha poderes para sujeitá-lo às mudanças do seu caráter, dos seus valores, de suas regras de conduta.
Consciente das circunstâncias e da impossibilidade de reverter à tendência do mundo mudou radicalmente ele.
Procurou um abrigo que acolhe e destrata, em sua grande maioria, os velhinhos desamparados.
E na convivência com os contemporâneos que ainda possuíam a capacidade de articular palavras pela integridade parcial dos neurônios que resistiam à velhice, retornavam ao passado, não para resgatarem a juventude, pela impossibilidade, mas a de recuperarem os valores daquela época.
Merece ressaltar, por estima à verdade, que os aludidos valores daquele período poderiam ser vistos pelas pessoas que viviam naquela época como rígidos e desproporcionais, contudo, nada como a passagem do tempo para depurar tudo e todos.
Agora, aquele indivíduo refratário caminhava sobre uma trilha empoeirada, com um olhar distante, sem viço, produto dos pensamentos e perspectivas de uma a vida vivida sob uma égide que, desgraçadamente, não encontrava ressonância nos dias atuais.
Os seus passos claudicantes levantaram um punhado de pó que embaçou a sua visão e maculou a imagem do passado e, imediatamente, o vazio que preenchia a sua alma ocupou definitivamente o seu espírito irrequieto e errante.

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