A insensibilidade dele percorria, sem exceção, todos os seus bilhões de neurônios reprimidos naquela caixa craniana que, por questão de inteireza intelectual não ficava nada a dever, pela malignidade, ao conteúdo da mitológica caixinha de Pandora.
Relembrando aos esquecidos e informando aos que a desconhecem, quando Pandora abriu a mencionada caixinha e percebeu que com seu gesto libertou quase todos os males que estavam ali guardados, imediatamente fechou-a, amedrontada por testemunhar as coisas extremamente ruins que de lá saíram, mas, infelizmente, para a humanidade, tardiamente.
Entretanto, o último e mais importante dos infortúnios permanecera dentro da caixa, o destruidor da esperança, o ser que traria a desgraça total ao mundo.
Depois de milhares e milhares de anos, de sucessivas e incontroláveis mutações genéticas autônomas e, também, aleatórias, o indivíduo a que me refiro, faz parte dessa linhagem que depois dessas várias metamorfoses, materializou-se nessa estrutura molecular que macula a natureza humana e leva a sua alma, que é a parte imortal do ser humano, desejar o inimaginável, a morte.
As pessoas que aparentemente deveriam ser as mais importantes e que foram retiradas dele pela cessação da vida, de forma abrupta, foram contempladas com olhares e sentimentos de distanciamento, de uma frieza que concorria apenas com aqueles corpos já gélidos, desprotegidos pela presença do fim.
Aquela atitude sórdida perdura nos dias atuais, pois, quando um dos circuitos cerebrais materializa, por acidente de percurso, no surgimento de lembranças daqueles entes próximos, imediatamente, apesar da complexidade dos dispositivos da memória, a sua natureza é facilmente enganada, e assim, ele as distorce, forjando as verdades mais contundentes, ficando registradas apenas as de suas conveniências.
Esse exercício fraudulento para o completo esquecimento originou-se numa noite fria e chuvosa, onde acordou perturbado, com arritmias cardíacas e com as roupas encharcadas de uma sudorese senegalesca, em razão de um sonho.
As imagens eram de seus mortos e os diálogos travados foram uma verdadeira catarse, mas não aquela catarse estimulada pelo profissional de psicologia que consiste em estimular o paciente a contar sobre determinado assunto, a fim de obter uma “purgação” da mente.
Não.
Os diálogos com seus mortos fluíram espontaneamente de forma serena e emitidos por aqueles lábios que outrora os cobriu de conselhos, de carinhos e de amores, quando em vidas. Entretanto, foram claros, objetivos, sem as máculas das agressões ou de cobranças, mas foram cirúrgicos, com a mesma precisão dos restauradores de artes, foram exatos em relembrar e restaurar as verdades.
Diante de suas palavras e da mudez total dele durante aquele período, despediram-se deixando o calor daqueles lábios em suas faces e esse contato de compaixão o fez acordar naquele estado lastimável, pela severidade das verdades proferidas e, pela conseqüência imediata, do drama de consciência.
A vida é cruel e afinal essas pessoas tiveram a má sorte, pelas artes confusas do destino, de terem seus corpos acorrentados aos daquele indivíduo pelo atavismo dos elos sanguíneos.
Ele continua a caminhar de forma solitária, espalhando discórdias, desdém e maldades.
Quando a sua hora derradeira chegar, vagará, entre os lixos cósmicos que o descriminarão, pois, afinal são resíduos de outra qualidade.

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