quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ele e ele mesmo.


Conversa a sós e mesmo assim as discussões eram sempre acaloradas e a sensação de quem assistia e percebia as suas expressões faciais não tinha nenhum resquício de dúvida: ele saíra perdedor daquela contenda, contra ele mesmo.

Cabisbaixo, quase sem fôlego, retirava-se do local da controvérsia, fosse no trabalho, na rua ou em casa, em busca de paz e de argumentos para uma próxima discussão que à medida que o tempo passava, era sempre mais próxima.

Não... não era louco, um demente. A sua atitude ressentia os seus primeiros 15 anos de vida, onde não conseguia exprimir um mísero som.

Sempre fora objeto de rejeição, de gozações impiedosas nas ruas e, desgraçadamente, também no convívio familiar.

A família, sem posses, bem que tentou nesses serviços públicos que aviltam a dignidade humana, sempre com vagas para atendimento marcadas para meses depois, um tratamento com profissionais de psicologia e fonoaudiologia. Tudo em vão. Quando cumpriam as datas marcadas, o tempo de atendimento era exíguo e assim, depois de muitas idas e vindas, abandonou as idas (não somente as da busca de resolução ou minização do problema que em nome da verdade nunca foi seriamente avaliado, mas pelo esgotamento da paciência pelo excesso do descaso).

Numa dessas trapalhadas do destino, abandonado na solidão do seu quarto, deparou-se com uma revista de seu irmão mais velho, cujo conteúdo era a inexistência do mesmo, em se tratando de roupas e textos.

Era um exemplar de mulheres nuas para todos os gostos e desejos.

Junto com a arritmia, com a sudorese, pela visão de uma calipígia que merecera a sensibilidade do editor, em colocá-la na página central da publicação, um comichão estranho percorreu a parte inferior do seu corpo, afinal era a primeira vez que via uma mulher desnuda, apesar de não ser ao vivo, era pelo menos a cores.

Aquela reação do organismo ao estímulo externo foi um êxtase menor, subalterno, diante de um arrebatamento muito maior e divinamente prazeroso ao fluir de forma súbita, a tartamudez.

Naqueles tropeços com as palavras jamais pronunciadas na vida, saiu um sonoro:
“Ca-ca-caraaa-lhooooooooo”.

Da situação de tartamudo a posição de prolixo se passaram ainda alguns anos.

Hoje, comete o excesso de falar, de discutir consigo próprio num tom adequado e com uma dicção perfeita, mas ao ver uma calipígia a gagueira retorna, acompanhada sempre e unicamente do primeiro som emitido na vida.

Que coisa! A vida é do ...... (bem, deixa prá lá), mas que é, é.


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