
As restrições impostas pela vida o levaram àquela situação letárgica, não a que induz a sonolência, mas aquela que provoca a indiferença, a apatia pela vida.
As suas energias foram-se esvaindo e estavam num nível crítico, grave, mas grave mesmo; os pensamentos tortuosamente confusos provocavam uma destemperança em suas idéias que a induziam a seguirem céleres em direção ao território árido e sem vida, o da desesperança.
Em resumo, caso ele fosse um astro do sistema solar estaria naquela zona denominada de penumbra, onde apenas uma parte do disco solar é visível.
O seu estado de espírito avançou ao limite da sombra quase total, e não obstante, prosseguiu, e agora se encontrava na mais completa escuridão, que no fundo, no fundo, era aquela zona denominada de baixo astral.
Essa situação, indubitavelmente, não se adequava à sua personalidade, pois, era um otimista por excelência.
Com o dinheiro da indenização pela dispensa injusta do trabalho, que, diga-se de passagem, fora desgraçadamente roubado nos cálculos rescisórios, resolveu comprar alguns livros de auto-ajuda, ao invés de quitar algumas pendências financeiras.
Entregou-se à leitura, com avidez. Com aquela sofreguidão típica dos necessitados que no seu caso era, primeiramente, à busca pelo equilíbrio emocional que teimava em insistir naquele movimento pendular incessante, e secundariamente, o resgate de sua auto-estima que estava num estado de desvalia total.
Como um otimista incorrigível, avaliou que, além da leitura dos textos, conseguira um ganho suplementar significativo, o abrandamento daquela fome avassaladora, utilizando-se da força do pensamento que apesar de tudo encharcava as suas entranhas de sucos gástricos, que provocavam um efeito colateral nefasto - a de uma dor fina e constante - oriunda de uma úlcera acalentada de longa data.
Quando fechou a última página do último livro, com o espírito completamente revigorado pelos textos, mas combalido por uma fome secular, não hesitou, foi em busca de um novo emprego.
O mercado estava refratário às novas vagas.
Para complicar a sua vida atrapalhada, deparou-se com a insensibilidade do senhorio em querer receber, num futuro incerto, os aluguéis em atraso.
O resultado foi procurar abrigo no único local possível e disponível, a rua.
Mesmo naquela situação adversa as frases que sublinhara em alguns livros vinham à mente de forma recorrente: “No fim tudo dá certo, se não deu certo é por que não chegou o fim!”, ou, “Para todo fim há um recomeço”, ou, a mais calhorda de todas – “Saiba que todo poço tem saída, para isso acontecer basta você querer!”
E olha que ele tentou.
Mesmo com as forças combalidas, ele lutou titanicamente contra todas as adversidades e como viram, não eram poucas.
Hoje, tuberculoso, procura na farmácia do hospital o segundo frasco do remédio, obedecendo as ordens estritas do doutor para não interromper o seu tratamento, pois a reincidência poderia levar a óbito. Entretanto, a atendente sem comoção nenhuma diz que não tem e ressalva de forma fria e distante que provavelmente não chegará nas próximas duas semanas.
Quanto à fartura na alimentação, outra prescrição médica, essa variava em função dos achados nos latões de lixos dos restaurantes, durante as madrugadas frias.
Esquálido, imundo, com uma tosse incessante, fraco, repete a exaustão: “Por mais que sejam escuras as nuvens e causem medo, elas são passageiras, então sempre acredite no amanhã.”
Com o avanço da doença pela irresponsabilidade do Estado, associado à alimentação deficiente e contaminada, definha e caminha em direção ao fim, contudo, sempre mantendo aquela fé inabalável de que tudo vai mudar.
Com esse pensamento fixo, distraído, atravessa uma rua e zás! É atropelado por um ônibus. O socorro chega com certo atraso.
Imediatamente, os profissionais avaliam a sua situação e um paramédico pergunta o seu nome. Ele responde. A médica indaga se ele tem alergia a algum remédio, ele nos estertores, responde: tenho alergia a atropelamento, principalmente, de coletivo.
É levado com a pressa possível naquele trânsito caótico, mas falece no percurso.
Não sei, honestamente, se ele foi otimista até fim, mas tenha a plena convicção de seu insuperável senso de humor, negro – penso eu.

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