sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A incerteza e a inocência naquela viagem de trem (década de 1950).


Condicionado, acordara no mesmo horário que compulsoriamente era impelido a abandonar a cama, independente dos humores do tempo, em seus últimos 37 anos de vida.

O seu relógio biológico e o outro, o da criação humana, não tinham mais nenhuma serventia, afinal, era o seu primeiro dia de aposentado.

E o tempo? Ah! O seu poder de mando fora condenado ao ostracismo por essas ironias da vida, enquanto subjugava muitos, destruindo outros, não percebera o decurso dele mesmo, o tempo, sobre aquele individuo.

Restava agora, apenas, assistir a vilania de sua irmã siamesa, a morte, sobre aquela pessoa. Nada mais poderia fazer apesar dos incautos acharem que ele, o tempo, era o agente da cessação definitiva das vidas. Ledo engano.

Irrequieto e irritadiço, circulava nos espaços internos de sua casa carregando um sentimento de ausência e essa sensação da presença do haver de menos era real, pois, aquela expectativa que o perseguia nos últimos meses, o de virar a página daquele enorme livro que abrigava os anos trabalhados de forma ininterrupta havia se materializado na véspera, quando assinara a rescisão trabalhista.

Acabou desabando o peso do corpo sobre aquela rede da varanda que o amparava, somente nos finais de semana ou feriados, e automaticamente acendeu um cigarro e tragou com avidez. Aquela sensação de prazer, própria dos tabagistas, acalmou seu espírito.

De repente, a sua faculdade para reter idéias, sensações, impressões, adquiridas outrora, começou a fluir.

Agora, retroagia ao passado e sentia aquelas lágrimas que teimavam em lavar as suas faces pré-adolescente, de forma despudorada e impulsiva provocando uma visão turva que atrapalhava as suas vistas deixando distorcidas, desfocadas, as últimas imagens da sua cidade natal, Muqui.

Encolhido naquele banco tosco de madeira daquele vagão da segunda classe que era o primeiro que estava engatado ao último da primeira classe, tremia.

Apertava contra o peito aquela mala de papelão que já tivera seus dias de glória e sedução, mas agora era um símbolo de derrota, de decadência pela precariedade, pelo excesso de uso, e que tinha duas serventias: abrigar as suas duas mudas de roupas e tentar abafar as batidas descompassadas e fortes do coração que insistia em, no seu sentir, sair pela boca.

Com o espírito confuso pelo medo provocado pela busca incerta de um futuro que pela sua natureza é sempre incerto, ouviu o apito derradeiro que indicava a partida daquele trem, um primor de alta tecnologia nessas plagas brasileiras, denominado de Maria Fumaça.

Aquele som nos seus ouvidos era como um lamento, um abandono, pela separação definitiva dos pais, dos irmãos e de sua vida de camponês.

Decisão que teve a anuência do pai, a discordância total da mãe e a emoção parcial dos oito irmãos que variavam em função de suas consciências sobre o significado daquela separação, em razão da variação das idades.

No seu destino, Volta Redonda, chegou depois de dez horas de viagem, entremeadas por paradas em estações de tamanhos e de formas variadas, mas nem naqueles intervalos de desembarques e embarques existiam tréguas na constância daquelas fagulhas que se transformavam em partículas frágeis, mas sólidas, que pulverizadas iam ao encontro de qualquer obstáculo, deixando suas marcas de negritude nos corpos e nas roupas dos passageiros.

Simplesmente, a sujeira era produto do carvão queimado nas caldeiras insaciáveis que impulsionavam aquele monstro de ferro, a locomotiva.

Perdido no sentimento e pelo senso de localização, não encontrava o endereço do parente que o abrigaria por poucos meses. Indagava às pessoas qual o caminho a seguir.

Passou por todas as necessidades que a vida impõe aos deserdados da sorte.

Depois de três meses, prazo máximo de validade determinado pelo tio para abrigá-lo foi morar num pardieiro e ser explorado por um dono de armazém desprovido de qualquer sentimento de humanidade.

Quando o desespero assumia proporções desumanas pensava em retornar à casa paterna, mas a insanidade dos perseverantes impedia o seu retorno.

Comeu o pão que o diabo amassou.

Aqui abro um parêntesis: o Tinhoso, ao receber a incumbência aludida, como castigo antes de ser defenestrado do céu, usou dos seus expedientes malévolos. O trigo transformava-se em massa, pelo movimento de suas manoplas dentro daquele caldeirão, quando os líquidos dos seus suores escorriam em bicas pela sua barba imemorial e caíam naquele recipiente. Para dar a liga necessária adicionava, também, a sua baba que escorria incontrolavelmente àquela mistura farinácea, formando, assim a pasta definitiva.

Caso houvesse uma mísera testemunha dessa cena dantesca, o nojo, a aversão, impediria a ingestão desse alimento e, também daqueles que tivessem na sua composição quaisquer vestígios de trigo.

Segundo a lenda, essa era a intenção do Cramulhão para afastar as pessoas de um segmento futuro, a do cristianismo, afinal, a hóstia é composta essencialmente de trigo. Fecho o aludido sinal gráfico que por sinal foi um dos maiores da língua portuguesa, uma excrescência.

Passou fome, vergonha e amargura. Mesmo naquele pesadelo, sonhava por dias melhores e dignos.

Estudou à luz de vela.

Como era um determinado, mesmo ferindo os requisitos basilares da sobrevivência, aboliu o jantar e acrescentou outras privações ao seu cotidiano já sofrido para pagar as mensalidades da faculdade, mas resistiu e formou-se.

Prestou um concurso público, passou e progrediu.

Agora, as lágrimas que desciam representavam a felicidade de sua conquista, a certeza de que compôs a sua história, mesmo com aquele conjunto disforme que a vida sempre o proporcionou.

Sorriu como há muito não fazia, apesar de rememorar os diversos sonhos que pereceram e do surgimento nefasto de vários pesadelos que se concretizaram.

Tudo passou e hoje prejulgava ser o senhor exclusivo de seus atos, como os escravos libertos do passado. Coitado, ficou livre apenas da peia, em razão da aposentadoria, esquecendo dos demais instrumentos utilizados por quem tem poder absoluto sobre o outro, como a gonilha, a gargalheira, o tronco, as algemas e o viramundo.
Afinal, como todos os seres humanos, estava sob o julgo dos desmandos da sociedade que tudo impõe e pouco oferece à semelhança dos donos dos escravos em tempos pretéritos

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