segunda-feira, 7 de abril de 2014

Lascado

Nasceu na localidade de Bambu Lascado e levava a denominação de lascado pela origem e o que é pior, pela sua situação.


Era um pobre diabo. Dizendo de outra forma para não ofender aos que não querem ler nenhuma citação que mencione aquele anjo decaído, utilizo-me do viés da cultura judaico-cristã, comparando, portanto, a sua situação com a dita pobreza franciscana. A referida pobreza era uma afronta ao seu estado de necessidade.

Apesar de tudo não era um revoltado, lutava com as únicas armas que tinha: suas mãos (revirando o lixão de Ilhéus).

Naquele dia achou um arremedo de ventilador. Era uma peça de resistência. As hélices estavam intactas, emperradas e o suporte que continha as teclas de ligar e de alterar a velocidade estavam num estado mais do que precário. Isso sem falar da parte do motor, cuja proteção estava totalmente envolta em fita crepom.

De dentro do invólucro do motor saíam 3 fios encapados nas cores vermelho, azul e branco, que estavam cortados e que deviam ir para a parte inferior, a dos controles de velocidade e partida. O problema era esse. Os fios dessa parte (inferior) estavam retorcidos, desiguais no tamanho, e apenas um mantinha a cor original (o vermelho), os outros dois não.

Assistia a tudo escondido. O pobre coitado já havia comido uma quantidade substancial de água (cachaça) e falava alto: “Pense: ai, não entendo nada de energia, será que o fio vermelho com o outro vermelho, combina?”.

Não resisti àquela dúvida e caí numa gargalhada incontida. Nem o elementar era do conhecimento daquele cidadão que precisava funcionar aquela engenhoca. No seu imaginário os mosquitos que ele chamava de jatinhos estavam maltratando o seu corpo que na sua concepção não passava de uma pista de pouso e decolagem (uma picada e asas para quem te quero).

Cabisbaixo seguia naquela empreitada. Tudo que ia fazer, falava em voz alta como estivesse procurando apoio imaginário de um companheiro de infortúnio. De tempos em tempos, dizia: “Lombrou”. Percebi o significado desse neologismo acompanhando suas tentativas de conserto. Quando dava errado a sua incursão vinha o indefectível: lombrou (portanto, “deu errado”).

Depois de horas de tentativas e excessos de erros, um grito forte estremeceu a noite: “Ah, ah, agora não lombrou”. As hélices começaram a girar alucinadamente, e o vento forte fez presente. O lascado pulava de alegria.

Refeito daquele impacto inicial, da ressuscitação milagrosa daquele ventilador em cacarecos, foi que percebeu que o vento ia pra trás.

O seu desabafo foi: “Não vou mais cansar a minha mente. Amanhã transmuto o vento. Esse ventilador está com pequenos constrangimentos. Quer saber de uma coisa? Tudo dá errado para mim. É uma sina da minha vida. É ... só Jesus na causa”.

Levantou-se levando aquele objeto de desejo e necessidade.

Não devia me imiscuir na vida alheia, mas a meu sentir, o vento da esperança nunca vai soprar para aquele indivíduo, e caso sopre será para traz (desesperança) como a do maldito ventilador.

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