quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Becos

Era um pedinte contumaz à semelhança de um mendigo, e como tal era destratado, quando não, completamente ignorado.

O que diferia e causava espanto aos poucos que lhe davam ouvidos era o inusitado de sua solicitação: implorava por velas.

Num beco de sua infância assistiu a mãe perder a vida quando tentava ganhá-la.
Foi assassinada friamente no calor de uma discussão que é um tipo de instinto bestial, contudo o outro, o mais conhecido, o sexo, havia sido arrefecido há pouco tempo.

Assistiu tudo a distancia, correu e com seus braços miúdos tentou sustentar a cabeça da mãe que nos estertores dizia: “filho, tudo está ficando escuro, muito escuro”.

De suas outras desgraças pessoais não falo. É a minha forma de prestar um tributo a esse infeliz.

Ele não pensava no futuro, apenas no passado.

Toda a noite frequentava um beco nas diversas cidades que compunham a sua caminhada errática à semelhança das dos judeus de tempos pretéritos.

Os becos, no seu imaginário, não tinham saídas, apesar de tê-los na sua quase totalidade.

Procurava o local mais escuro ou menos luminoso e cumpria o ritual de uma vida inteira: acendia a vela e sentado assistia aquela luz bruxuleante que nas suas retinas se transformavam em feixes intensos de luminosidade a profanar a escuridão existente, ou aquela meramente produto das suas reminiscências mais doloridas.

Por mera ilação, concluo que aquele procedimento representava a tentativa de iluminar a caminhada solitária do espírito que coexistia na sua mãe.

A sua mente obsessiva não observava os sinais da vida.

Distraído, atravessou uma rua e foi arremessado a metros de distância por um carro desgovernado.

A sua agonia foi pouca e a escuridão muita.

Não teve uma mísera alma caridosa que sempre surge do nada para que lhe acendesse uma vela.

Os espíritos da mãe e do filho encontraram-se e vagueiam agora num buraco negro.

A famosa luz eterna não os contemplou
.
Não me perguntem a razão. Como ateu, a teoria criacionista não passa de uma ficção de décima-quinta categoria e como tal, vejo a bíblia como um monumental desperdício de papel e tinta. 





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