Era um pedinte
contumaz à semelhança de um mendigo, e como tal era destratado, quando não,
completamente ignorado.
O que diferia e
causava espanto aos poucos que lhe davam ouvidos era o inusitado de sua
solicitação: implorava por velas.
Num beco de sua
infância assistiu a mãe perder a vida quando tentava ganhá-la.
Foi assassinada
friamente no calor de uma discussão que é um tipo de instinto bestial, contudo
o outro, o mais conhecido, o sexo, havia sido arrefecido há pouco tempo.
Assistiu tudo a distancia,
correu e com seus braços miúdos tentou sustentar a cabeça da mãe que nos
estertores dizia: “filho, tudo está ficando escuro, muito escuro”.
De suas outras
desgraças pessoais não falo. É a minha forma de prestar um tributo a esse
infeliz.
Ele não pensava no
futuro, apenas no passado.
Toda a noite frequentava um beco nas diversas cidades que compunham a sua caminhada errática
à semelhança das dos judeus de tempos pretéritos.
Os becos, no seu
imaginário, não tinham saídas, apesar de tê-los na sua quase totalidade.
Procurava o local
mais escuro ou menos luminoso e cumpria o ritual de uma vida inteira: acendia a
vela e sentado assistia aquela luz bruxuleante que nas suas retinas se
transformavam em feixes intensos de luminosidade a profanar a escuridão existente,
ou aquela meramente produto das suas reminiscências mais doloridas.
Por mera ilação,
concluo que aquele procedimento representava a tentativa de iluminar a
caminhada solitária do espírito que coexistia na sua mãe.
A sua mente obsessiva
não observava os sinais da vida.
Distraído, atravessou
uma rua e foi arremessado a metros de distância por um carro desgovernado.
A sua agonia foi
pouca e a escuridão muita.
Os espíritos da mãe e
do filho encontraram-se e vagueiam agora num buraco negro.
A famosa luz eterna
não os contemplou
.
Não me perguntem a
razão. Como ateu, a teoria criacionista não passa de uma ficção de
décima-quinta categoria e como tal, vejo a bíblia como um monumental
desperdício de papel e tinta.

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