Aquele casamento foi
um equívoco danado. Sem agressões gratuitas, mas aquela besta quadrada, o
marido, só percebeu a desdita alguns dias após a lua de mel.
Levar uma relação a
três exigia dele mais do que podia dar. Não estou falando do "ménage-a-trois", a famosa
libertinagem sexual, mas da essência da mesma, pois a sogra exauria todas as
suas energias e como não fosse suficiente, o desqualificava como homem, por não
cumprir com suas obrigações de provedor.
Entupia-se de remédio
para levar aquela relação. Numa noite a situação passou dos limites e endureceu
como nunca fizera antes: expulsou a sogra de casa.
O ódio entre genro e
sogra, a partir dessa decisão, tornou-se extremado.
A contra gosto sabia
da saúde da sogra pela voz chorosa da esposa.
Nos últimos cinco
antes, a sogra entrara desenganada pelos médicos no CTI e quando os sinais
vitais pareciam desaparecer, a velha renascia e não era das cinzas.
Ele tinha verdadeira
aversão a ditados populares, principalmente o que dizia “que a esperança era a
última que morre”, afinal, a seu sentir, não era mera coincidência o nome da
sogra: Esperança.
Como tudo passa, num
belo dia para ele, a sogra passou.
Não assistiu a
ritualística fúnebre, do velório à cremação.
A bem da verdade
pensou na hipótese de ir ao velório com a única finalidade: cuspir no caixão.
Desistiu. Detestava enfrentar fila.
Passados os oito dias
protocolares para liberação dos últimos vestígios mortais
informou aos cunhados e cunhadas que iria buscar as cinzas da sogra.
Todos ficaram
perplexos, contudo não emitiram qualquer opinião.
Marcaram um local
para o encontro e todos seguiram, nos respectivos carros, para cumprir o
derradeiro desejo da falecida, a de ter suas cinzas lançadas no mar de
Mangaratiba.
Antes de cumprirem
aquela obrigação, sentaram num barzinho e desceram cervejas a rodo, pois, o
calor estava infernal. Passaram da tristeza à euforia alcoólica, em minutos.
Ele, abstêmio por
natureza, assistia aquele espetáculo dantesco. A orgia do álcool fazia-se
presente ao lado daquela caixinha de madeira com as cinzas da mãe daqueles
bebuns.
Preocupado com o
passar das horas e de seu desejo íntimo de ver aquelas cinzas sumirem nos
quintos do inferno, mesmo que fosse água, dirigiu-se ao dono do quiosque e
implorou por um vasilhame para transportar aqueles restos mortais para as
profundezas do mar, ou mesmo para as espumas que desapareciam nas areias da
praia. Afinal, não colocaria jamais seus tornozelos naquela água, quanto mais
às pernas, para acatar o pedido daquela megera.
O pedido foi
atendido. Recebeu uma lata, do mesmo tipo daquelas que ficaram famosas nas
praias do Rio de Janeiro que chegavam repletas de maconha, e das boas, segundo
os entendidos.
Fez a transposição do
conteúdo daquela caixa de madeira para a lata, sob as vistas dos filhos bêbados
que registraram o fato por apenas 10 segundos.
Blasfemando jogou a
lata no mar. Para sua infelicidade, as cinzas fizeram lastro naquela embarcação
tosca (a lata) que flutuou.
Não acreditou. Juntou
uma quantidade substancial de pedras e as lançou em direção daquele objeto
flutuante. Nada
.
Para sua felicidade,
constatada depois, viu um bando de pivetes vindos à sua direção para assaltá-lo
(certamente).
Negociou com os
assaltantes mirins e nunca ficou em tamanho êxtase ao perder R$ 1.820,00 para
os mesmos. Afinal, eles cumpriram o trato. Alvejaram aquele arremedo de
embarcação fúnebre que adernou diversas vezes (que velha persistente!), mas
acabou submergindo.
Chegou ao quiosque e
pediu uma talagada de cachaça e deu vivas à Esperança.
Boquiabertos os
parentes alcoolizados assistiram a queda brusca dele e depois protagonizaram
uma correria desenfreada para levá-lo ao hospital mais próximo.
O diagnóstico foi
rápido: coma alcoólico.

Nenhum comentário:
Postar um comentário