domingo, 13 de abril de 2014

SOGRA

Aquele casamento foi um equívoco danado. Sem agressões gratuitas, mas aquela besta quadrada, o marido, só percebeu a desdita alguns dias após a lua de mel.

Levar uma relação a três exigia dele mais do que podia dar. Não estou falando do "ménage-a-trois", a famosa libertinagem sexual, mas da essência da mesma, pois a sogra exauria todas as suas energias e como não fosse suficiente, o desqualificava como homem, por não cumprir com suas obrigações de provedor.

Entupia-se de remédio para levar aquela relação. Numa noite a situação passou dos limites e endureceu como nunca fizera antes: expulsou a sogra de casa.

O ódio entre genro e sogra, a partir dessa decisão, tornou-se extremado.

A contra gosto sabia da saúde da sogra pela voz chorosa da esposa.

Nos últimos cinco antes, a sogra entrara desenganada pelos médicos no CTI e quando os sinais vitais pareciam desaparecer, a velha renascia e não era das cinzas.

Ele tinha verdadeira aversão a ditados populares, principalmente o que dizia “que a esperança era a última que morre”, afinal, a seu sentir, não era mera coincidência o nome da sogra: Esperança.

Como tudo passa, num belo dia para ele, a sogra passou.

Não assistiu a ritualística fúnebre, do velório à cremação.

A bem da verdade pensou na hipótese de ir ao velório com a única finalidade: cuspir no caixão. Desistiu. Detestava enfrentar fila.

Passados os oito dias protocolares para liberação dos últimos vestígios mortais informou aos cunhados e cunhadas que iria buscar as cinzas da sogra.

Todos ficaram perplexos, contudo não emitiram qualquer opinião.

Marcaram um local para o encontro e todos seguiram, nos respectivos carros, para cumprir o derradeiro desejo da falecida, a de ter suas cinzas lançadas no mar de Mangaratiba.

Antes de cumprirem aquela obrigação, sentaram num barzinho e desceram cervejas a rodo, pois, o calor estava infernal. Passaram da tristeza à euforia alcoólica, em minutos.

Ele, abstêmio por natureza, assistia aquele espetáculo dantesco. A orgia do álcool fazia-se presente ao lado daquela caixinha de madeira com as cinzas da mãe daqueles bebuns.

Preocupado com o passar das horas e de seu desejo íntimo de ver aquelas cinzas sumirem nos quintos do inferno, mesmo que fosse água, dirigiu-se ao dono do quiosque e implorou por um vasilhame para transportar aqueles restos mortais para as profundezas do mar, ou mesmo para as espumas que desapareciam nas areias da praia. Afinal, não colocaria jamais seus tornozelos naquela água, quanto mais às pernas, para acatar o pedido daquela megera.

O pedido foi atendido. Recebeu uma lata, do mesmo tipo daquelas que ficaram famosas nas praias do Rio de Janeiro que chegavam repletas de maconha, e das boas, segundo os entendidos.

Fez a transposição do conteúdo daquela caixa de madeira para a lata, sob as vistas dos filhos bêbados que registraram o fato por apenas 10 segundos.

Blasfemando jogou a lata no mar. Para sua infelicidade, as cinzas fizeram lastro naquela embarcação tosca (a lata) que flutuou.

Não acreditou. Juntou uma quantidade substancial de pedras e as lançou em direção daquele objeto flutuante. Nada
.
Para sua felicidade, constatada depois, viu um bando de pivetes vindos à sua direção para assaltá-lo (certamente).

Negociou com os assaltantes mirins e nunca ficou em tamanho êxtase ao perder R$ 1.820,00 para os mesmos. Afinal, eles cumpriram o trato. Alvejaram aquele arremedo de embarcação fúnebre que adernou diversas vezes (que velha persistente!), mas acabou submergindo.

Chegou ao quiosque e pediu uma talagada de cachaça e deu vivas à Esperança.

Boquiabertos os parentes alcoolizados assistiram a queda brusca dele e depois protagonizaram uma correria desenfreada para levá-lo ao hospital mais próximo.

O diagnóstico foi rápido: coma alcoólico.




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