segunda-feira, 28 de abril de 2014

Da Impostura ao IMPOSTO

Dois irmãos, mas que aritmeticamente falando dá um (produto da soma), afinal, são meios-irmãos, por parte de pai.

Conviveram pouco – menos de um ano e meio.

O mais velho foi para um seminário aos 10 anos, não em busca de salvação, mas de sobrevivência. O outro, com 3 anos, ficou sob a proteção e abrigo da mãe contra as maldades eternas do pai.

Reencontraram-se 7 anos depois, após a expulsão do primeiro do seminário.
A convivência não chegou a um mês, pois o pai seguindo os passos tortuosos e equivocados dos padres, o expulsou também.

Perderam o contato. Por obra do acaso, após 30 anos reencontraram-se. Condensaram, como se fosse possível, as suas vidas em exíguas 6 horas e na despedida trocaram os respectivos números de telefone.

Meses se passaram quando o irmão mais velho recebeu uma ligação internacional (dos Estados Unidos) do outro, que agora não vivia, agonizava com os parcos recursos advindos de trabalhos subalternos. Feliz, afirmara que dera um passo para Jesus – convertera-se – era crente. Não um crente qualquer, não. Mas num chato, pois de imediato tentou convertê-lo naquela ligação. Logo ele, um ateu.

As ligações tornaram-se mensais. O irmão-ateu ouviu do irmão-crente a sua principal desdita, era um alcoólatra inveterado.

Na noite de 31 de dezembro, o irmão-ateu ligou para o irmão-crente para desejar os tradicionais votos de felicidade, prosperidade, etc.

Antes da ligação ser completada comentou com sua esposa que falaria no máximo por cinco minutos, afinal os custos eram exorbitantes e sua situação financeira estava combalida.

O irmão-crente atendeu com uma voz pastosa, entremeada de choros compulsivos e de palavras desconexas provocadas pelo excesso de álcool. Conseguiu entender que a esposa pedira divorcio e que estava completamente abandonado.

O irmão-ateu pensou: ”Esse infeliz está encharcando a alma com vinhos baratos, afinal vinho é sagrado, e não deve ofender os preceitos de sua crença”.

Seu pensamento foi interrompido pela informação do irmão-crente: ”Meu irmão, estou sentido a presença de entidades espirituais que desejam chegar.

O irmão-crente, abdicando da ironia, respondeu: “Deixa, deixa chegar”.  E como chegaram. Não desceram no varejo, mas no atacado.

Quando uma cantava para subir, a outra assumia o posto imediatamente.

A esposa do ateu não parava de rir, pois o marido sempre respondia as saudações das “entidades” com um: ”Deus seja louvado”.

Resultado: ficou mais de uma hora falando com esses seres de outro mundo.

No primeiro descuido de uma entidade que subia com certa malemolência, imaginou: “deve ser baiana”, e desligou o telefone imediatamente.

Estava indignado. Não pela ruptura da fé do irmão-até-então-crente, nem pela impostura que foi submetido pelas entidades supostamente incorpóreas. A sua ira estava concentrada no Governo.

Afinal, pagaria uma fortuna pela abusiva carga tributária desse país naquela ligação telefônica.

Acreditava que tudo tinha limites, mas o Governo desse país desgraçado mostrou o contrário. Chegou ao limite da extorsão e não obstante prosseguiu. Onde já se viu tributar falas, conversas de entidades espirituais? Isso era um descalabro inominado, uma excrescência. Afinal, não eram seres humanos.

O ateu, com suas vistas cansadas provenientes do avanço inexorável do tempo e de assistirem, desgraçadamente, uma infinidade de indignidades dos homens públicos perpetradas contra essa massa de deserdados da sorte, a quase totalidade do povo brasileiro, praguejou:

“Esses ladravazes devem lembrar que Deus, Deus vê tudo, e o pior, castiga.



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