
A vida dele sempre foi uma tormenta, a começar pelo sobrenome.
Para não fugir a regra da exceção, chegou ao mundo numa noite amena e de uma calmaria surpreendente, pois, o dia anterior trouxe uma antevisão do Apocalipse.
Essa pré-visão estava adstrita, apenas e tão somente, ao dos últimos acontecimentos antes do retorno do Messias, conforme relato de João Evangelista, registradas no último livro canônico do Novo Testamento, sobre as revelações que lhe foram feitas quando estava na ilha de Patmos.
Era um mês aziago, não por ser agosto e sim, pela vigência do horário de verão que altera os relógios biológicos das pessoas e a cronologia dos nascimentos, pois, nas certidões expedidas constam à hora vigente, sem ressalvas, maculando ad eternum a ordem e a sucessão dos acontecimentos.
Essa omissão causou profundos transtornos ao longo de sua vida.
Na fase adulta era um adepto fervoroso dos mapas astrais, da numerologia, dos horóscopos e de outras áreas afins e todas as suas incursões nesses campos esotéricos não produziam os resultados esperados, ou próximos.
O problema que atormentava o Tormenta era seu desejo de interpretar um dado momento de sua vida e recorreu a astrologia.
Essa pretensa ciência, para uns, utiliza-se de uma técnica denominada de trânsito que indica as tendências do momento desejado e que forças disponíveis existiam para atravessá-lo, no caso em questão, era à hora de sua chegada ao mundo.
Desgraçadamente, mais uma vez, o Tormenta, deu com os burros n’àgua, ou melhor, saiu de sua órbita.
Ninguém pensou no maldito horário de verão quando faziam seus estudos e fixavam-se, apenas, na hora e na data de nascimento que constavam da certidão de nascimento:......
às 00 h 30 do dia 22 de novembro de 19.., logo, era do signo de Sagitário, entretanto, nasceu efetivamente às 23 h 30 do dia 21 de novembro, Escorpião, portanto.
Problema resolvido? Não.
Na hora correta de seu nascimento estava nos seus estertores o término da conjunção entre Plutão e Lilith (ou Lua Negra), e essa era a razão das desditas eternas do Tormenta.
Afinal, a Assembléia Geral da União Astronômica Internacional (IAU), reunida em Praga, decidiu por unanimidade dos seus membros, denegarem a condição de planeta principal, a Plutão, em razão da descoberta de vários corpos celestes de tamanho equivalente ou maior, além de alegaram à excentricidade de sua órbita, etc.
A capacidade humana de exercer a mais odienta de todas as intolerâncias, a do preconceito é infinita, pois, atravessou os umbrais do espaço sideral e, em razão de seu nanismo, Plutão, deixou sua condição anterior para se transformar em planeta anão, conforme sentença da IAU.
Essa decisão destruiu a memória afetiva e emocial de milhões de pessoas que nasceram na conjunção desse outrora planeta com qualquer outro astro, no mesmo ponto do zodíaco.
Para os descrentes do esoterismo, a profunda desordem na vida do Tormenta poderia ter origem outras e não numa irrelevância estúpida de corpos celestiais e suas órbitas, mas o fato em questão é a crença dele, não a dos outros, e ponto final.
Cansado dos desencontros da vida, das tragédias vivenciadas, das tormentas perpétuas resolveu eliminar definitivamente a sua condenação eterna, mas com uma condicionante pétrea: a de não completar mais um ano de vida.
No dia do seu aniversário deu cabo à vida quando faltava exatamente quarenta minutos para chegar à hora do seu pseudonascimento, cumprindo assim, o derradeiro item de um ritual que fora meticulosamente estudado.
Mesmo que na nova condição incorpórea esteja atravessando por tempestades diluvianas para chegar a um destino incerto, essas condições nunca serão tão devastadoras, caso soubesse que morreu com mais um ano e 20 minutos de idade. (haja tormenta!)

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