
Assistir o deslocamento daquele indivíduo causava sobressaltos e dúvidas sobre a lei da gravidade.
Os passos cumpriam um ritual completamente desconexo, avançava e recuava numa passada, impondo uma responsabilidade desproporcional à outra perna que em segundos via-se à frente e ficava a mercê da outra.
Os comandos aparentemente incertos do cérebro, afetados pelo teor alcoólico, certamente administravam dentro de suas possibilidades novos centros gravitacionais para aquele corpo torto que insistia, teimosamente, em prosseguir.
As conexões neurais resistiram acima de suas possibilidades.
O resultado foi aquele corpo adquirir hematomas diversos, em extensões e gravidades diferenciadas, produto da queda sobre aquele solo que girava alucinadamente, conforme os últimos registros de suas retidas embaciadas, antes do apagão total - provocado pelo colapso das redes cerebrais.
Caiu às portas dos Alcoólicos Anônimos e naquela hora, a presença de um dos anônimos seria providencial, mas estavam todos ausentes em seus anonimatos.
O fato materializava, desgraçadamente, a consagração máxima da ironia da vida e ratificava, de forma inquestionável, a inexistência de qualquer possibilidade de alterar o destino daquele ser embriagado.
Os transeuntes desviavam daquele corpo que obstruía parcialmente as suas passagens e quando não furtavam o olhar para aquele quadro que feria a dignidade humana, as palavras duras se faziam presentes, construindo comentários sempre cruéis e desairosos.
Afinal, aqueles críticos não permitiam que os seus espíritos sentissem os efeitos da solidariedade e da compaixão humana.
Eram figuras sóbrias, equilibradas, mas sem quaisquer vestígios de humanidade.
Apesar do esforço de um companheiro de copo a ajuda chegara tarde.
A pouca terra que cobria aquele simulacro de caixão na quadra disponibilizada aos indigentes, encobriu, também, a sua lamentável história de vida.
A irresponsabilidade dos poderes constituídos por ação ou omissão, levou a destruição pelo fogo àquela comunidade abrigada na escuridão da cidadania.
Dentre dezenas de mortos estavam sua mulher e filhos.
Apesar de sua condição de pária procurou avidamente a fonte da Justiça para a condenação dos responsáveis, mas deparou-se com um deserto de probidades humanas.
A desilusão e a dor levaram-no, mesmo relutante, à busca pelo primeiro copo.
O torpor advindo e inesperado, por ser abstêmio, amenizou o seu espírito.
A partir daquele momento a sua alma passou a ficar sempre encharcada pelo álcool que foi o único que hipotecou, mesmo que de forma etérea, alguma solidariedade à sua dor e desesperança.

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