quarta-feira, 28 de julho de 2010

Resistência

Afirmar que caminhava para aquele recinto de forma irresponsável seria uma temeridade.

Os conflitos interiores aumentavam à medida que a racionalidade perdia espaço para aquela força incontrolável, a da impulsividade.

Adentrou aquele ambiente que recendia claramente à lascívia, em oposição à quase ausência de luminosidade que facilitava as aproximações entre as pessoas ávidas de encontros, mesmo que fossem etéreos.

As luzes multicoloridas alternavam a intensidade e a duração de exposição, perseguindo as notas trôpegas e estéreis das músicas eletrônicas que reverberavam naquele espaço amplo e nos corpos dos presentes.

Não havia passado muito tempo e o seu drama pessoal começava a adquirir contornos que conscientemente repudiava, mas a excitação que devastava o seu corpo aumentava ao fixar seus olhos naquela figura atraente, que a priori sabia ser fútil e devassa.

As mãos trêmulas, a tensão muscular, os batimentos cardíacos acelerados, a respiração mais profunda e mais rápida, associado ao suor que impregnava o seu corpo e manchava a sua alma, o colocaram num estágio de torpor que recrudescia pela precariedade de seu estado emocial desgastado pelo pensamento recorrente na família e nas possíveis conseqüências, caso cedesse a sua volúpia.

Amparado nas últimas forças de resistência de seu íntimo, levantou-se abruptamente, e num ato irrefletido, instintivo, desviou o seu olhar para aquele objeto de desejo e cobiça que, friamente, mantinha-se impassível diante do seu gesto.

E aquela imagem registrada nas suas retinas foi fatal.

Sucumbiu. As pernas hesitantes não suportaram o peso do corpo e do desejo intensamente reprimido e desabou literalmente sobre a cadeira.

Uma lágrima solitária e trêmula percorreu uma das suas faces que passou despercebida aos demais, mas que fora extremamente devastadora pela sua ambigüidade, pois externava a sua última reação de sensatez e, por outro lado, materializava a primeira derrota depois de longas e trágicas batalhas pessoais.

Desistiu de resistir.

Fechou os olhos e num gesto brusco a pegou pela cintura e avidamente saciou seus instintos primitivos, sugando compulsivamente a última gota daquela taça de martini.

Uma sucessão de outras vieram, agora regiamente pagas, pois a primeira era uma maldita cortesia, ação essa despossuída de qualquer ingenuidade e civilidade.

Depois de dois anos sucumbira ao vício ou à doença, o que para ele não tinha mais importância, pois, a sua ação representava uma derrota coletiva: a sua, dos familiares, dos amigos e dos anônimos daquela associação.



4 comentários:

  1. E fantastica a forma que o autor nos leva a imaginar.ENquanto nossas mentes "poluidas" nos leva a pensar que o personagem estava a cometer um ato de traicao sexual ,este nos surpreende com o vicio do alcool,com a traicao para com os familiares,amigos,e companheiros da instituicao que acreditam piamente que o personagem esta a progredir com o tratamento para se livrar do alcoolismo.a traicao da grande expectativa para com ps entes queridos.E do "car...".o senhorito cada vez surpreende mais e mais.

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  2. Tâmara,

    A mente humana é de uma perversidade atroz.
    Veja como que a atrofia cerebral pode produzir um texto desqualificante como esse.
    Agradeço pela gentileza dos comentários.
    Beijos

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  3. A imaginação é algo de uma beleza e complexidade que transcende a qualquer busca de explicação. A leitura do texto nos leva a outras situações, a outros mundos, a outras esperanças. Mas a maior delas é como podemos imaginar a miríade de imagens em torno de algo tão distante das nossa realidade tupiniquim, a não ser nos filmes de Bond, James Bond, como uma taça de martini, seja lá o que for isso...

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  4. Jorge Luiz,
    A imaginação é a materialização dos despossuídos.(gostei dessa construção que atribuirei a Mayevsky)
    Impossibilitados de ver, sentir, viver, etc. recorre ao seu pote de mágoas e as vezes ao retirar uma dessas gotas de desesperanças acaba surgindo um arrazoado desse de indução ao erro.
    Louvo a sua perspicácia, pois, o objeto de cobiça (o martini) não poderia ser esse VULGAR, o da MARCA e sim, aqueles que aparecem nos filmes de James Bond, constituido de 40 ml de Gin;20 ml de Vodka;20 ml Vermouth Dry, agitados em uma coqueteleira até gelar por 30 segundos, logicamente, adicionando, após coar a mistura, em outra taça gelada, casca de limão siciliano (como você escreve: ou qualquer coisa do genero).
    Ressalto, sou abstêmio.

    Em uma coqueteleira Shaker ou Mixing in glass (copo mexedor) adicione os ingredientes e mexa no mixing in glass com ajuda de uma bailarina ou agite em uma coqueteleira até gelar por 30 segundos, evitando que os ingredientes fiquem aguados. Depois, coe duplamente em uma taça Martini previamente gelada. Como guarnição, utilize Twist de limão siciliano.

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