sexta-feira, 28 de maio de 2010

Estereótipo



Desde tempos imemoriais aquele ser padecia dos mais ignaros preconceitos.

Fugia a sua compreensão, as atitudes restritivas de seus pares, isso desconsiderando que habitavam o paraíso celestial.

Na sua condição de anjo, onde a homogeneidade das virtudes deveriam ser cláusulas pétreas era tratado como um inciso, um parágrafo descartado quando da elaboração final da Constituição Celestial.

Por natureza e índole era calmo, tranqüilo, sereno.

Externava seus pensamentos sempre pausadamente, sem pressa e tolerantemente admitia o contraditório, sempre com temperança e, as suas réplicas eram pautadas pelo comedimento, pela parcimônia.

As suas agruras foram motivadas por uma das andanças sazonais dos anjos à Terra e no caso em questão, quando visitaram o Brasil, não o país, e sim, a Bahia.

Ficaram pasmos com a manemolência dos baianos em relação à vida.

A total indisposição daqueles habitantes em apressarem seus ritmos biológicos; a moleza característica das suas pressas; a pachorra demonstrada diante das arbitrariedades dos homens públicos e o hábito de beijarem-se nos encontros e nas despedidas.

Aquelas más impressões causadas pelos baianos, nas visões míopes e estereotipadas daquela legião de anjos foram represadas totalmente na figura daquele anjo que habitualmente, despedia-se dos demais com beijos fraternais.

Desprezado pelas idéias preconcebidas dos seus semelhantes não foi avisado de uma rebelião em curso, e quando chegou, foi com um atrasado substancial no local da contenda, em razão de seu característico vagar no bater de asas.

Acabou defenestrado do céu, por equívoco, como rebelado fosse.

Os seus novos problemas começaram nas frações de segundos, após a transposição dos limites celestiais, quando foi transformado naquilo que hoje encarna.

Desconhece quais das correntes do confronto, a dos anjos decaídos ou dos que se mantiveram no poder que agiram de forma torpe e cruel ao estabelecer aquela a punição, ou melhor, isto é, ou pior, aquela condenação perpétua de sobreviver de maneira reversa a de sua natureza pretérita.

Hoje é um ser ágil e irrequieto. As suas asas batem de 70 a 80 vezes por segundo e sobrevive beijando, não os da sua espécie e sim plantas, com seu bico alongado para sugar o néctar das flores que é a sua fonte de energia e de sobrevivência.

Achava os homens causas completamente perdidas, mas diante da evidência dos fatos, revejo minha posição e afirmo que não passam de anjos. Não, não e não.

Vejam o equívoco de viver baseado em estereótipo.

4 comentários:

  1. Olá Paulo, gostei de ler algo sobre a vida dos bahianos, embora eu ache um mito, dizer que o bahiano é lento e sem pressa, é que as vezes dentro da cabeça existe uma abundância de pensamentos, impossivel de exteriorizar,

    um grande abraço

    Macedo Leal

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  2. Macedo,

    Na realidade, a percepção sobre a possível lentidão do baiano é que está equivocada.
    Acho que o baiano atingiu um grau de percepção sobre a vida e sobre as coisas que os colocam num patamar diferenciado dos demais.
    Presto um tributo transversos a eles, ao colocar no texto, os estereótipos que procuram macular as suas imagens quando aquele anjo é punido pelas mesmas características e é condenado a viver como um beija-flor.(a irracionalidade da pressa para se manter em todos os sentidos).
    Um forte abraço

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  3. Concordo com você pai: "Acho que o baiano atingiu um grau de percepção sobre a vida e sobre as coisas que os colocam num patamar diferenciado dos demais." Ótimo texto!

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  4. Marcus,
    Agradeço pelo comentário, mas devo fazer uma ressalva, talvez, o seu subconsciente tenha influenciado sobre o comentário sobre os baianos, afinal, a semente de sua vida foi plantada na santa terrinha (Farol da Barra)
    Beijos,

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