sexta-feira, 14 de maio de 2010

Superstição


Nas noites que seus sonhos eram em preto-e-branco, pronto, os dias subseqüentes àquelas imagens eram pautados por uma mudez quase total.

Colocava seu despertador para às 05:59 h, pois, acordar nas horas cheias traziam indícios que no futuro, acontecimentos não auspiciosos, adviriam.

Levantava da cama sempre colocando no chão, o pé esquerdo em primeiro lugar, escovava os dentes sem olhar no espelho, e imediatamente tomava a mesma medida de água, no mesmo copo, sempre segurando-o com a mão direita.

Esta liturgia era cumprida diariamente, caso contrário, haveria uma baixa na sua imunidade biológica.

Seguia suas crenças inadequadas à lógica, sempre com uma convicção inabalável, chegando a ponto de não comparecer a uma entrevista de trabalho, pois, o local determinado era no décimo andar, número de infortúnio para ele.

Era uma pessoa agradável no trato pessoal, bom papo, atualizado e quando nas conversas, alguém comentava sobre determinada superstição, ele não estendia o assunto, ressalvando sempre que, respeitava a postura de quem a adotava.

Jamais comentara sobre as suas infindáveis superstições com ninguém, pois, trazia azar ao supersticioso.

Sua cor predileta era o amarelo, mas tinha aversão à vermelha, convivia com certas restrições com os números pares, exceção feita ao número 10 que era irrestrita.

Certo dia, atrasado que estava, resolveu atravessar a avenida com o sinal na cor amarelo e pronto, foi atropelado.

Entre o torpor e a dor, escutou o som da sirene e viu aquela ambulância de cor vermelha chegando, eram os bombeiros. Não chegara a reparar, mas o número estampada na lateral daquela Unidade era 1010.

No hospital fora operado de um pequeno coágulo no cérebro, e dentre as demais escoriações leves, quando saiu do CTI, 10 dias após o acidente, percebera que estava com a perna esquerda e o braço direito, engessado.

O período de recuperação foi, também, de reflexão sobre suas superstições e de mudanças na sua qualidade de olhar, através de um processo de racionalização de suas crendices.

Mentalmente, listou suas crenças anteriores versus suas novas conclusões:

- Quem quebrar um espelho terá sete anos de azar X para o fabricante de espelhos, era sorte, pois, aumentava seus lucros; e quem quebrasse o espelho e não se cortasse, era efetivamente, portador de muita sorte;

- Guarda-chuva: dentro de casa, o guarda-chuva deve ficar sempre fechado, pois, segundo uma tradição, abri-lo dentro de casa traz infortúnios e problemas aos familiares X a questão de não abrir o guarda-chuva estava intimamente ligado ao espaço e, também, ao não molhar o chão;

- Cruzar com gato preto é azar na certa X na Idade Média, a Igreja, afirmava que gatos pretos eram bruxas transformadas em animais.

E assim, sucessivamente foi revendo suas crenças e as eliminando definitivamente da sua vida.

Recebeu alta de seu leito número 10, às 11h00min, a numeração do táxi especial era par e o motorista vestia uma camisa vermelha berrante.

Assimilou todos esses sinais, sorriu, mas, antes de adentrar no táxi, procurou uma madeira e bateu três vezes, pelo sim, pelo não.

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