domingo, 2 de maio de 2010

A Carta Magna (de conteúdo mais que duvidoso).


Era um indivíduo de estudos incipientes, mas bastava pressentir que o Estado queria, por suas ações ou omissões, impor-lhe um atestado de indigência mental, transformava-se num porta-voz da ira dos homens justos e dignos.

Uma voz, lamentavelmente, desprezada pela indiferença dos cínicos e pela ignorância dos crentes.

Vivia na periferia da cidade, onde a ausência do Estado é presente na sua integralidade.

Fazia parte daquela legião de desassistidos que misteriosamente sobreviviam e sobrevivem, com o fito, na visão governamental, de denegrir os índices de desenvolvimento humano do governo.

Com a Constituição Federativa do Brasil em mão, procurou o abrigo de uma árvore frondosa, para amenizar o calor senegalesco, que para uns era um prenúncio do horror das temperaturas infernais.

Para ele, aquelas observações eram palavras jogadas ao vento, caso houvesse algum naquele momento, afinal, era um agnóstico.

Antes de abrir a Carta Magna pensou que a única brisa existente e persistente naquele local, era o viver de brisa.

Aleatoriamente, abriu na página que materializava a cláusula pétrea da natureza humana, a do cinismo:

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

inspirou fundo aquele ar abrasador e bruscamente fechou aquele conjunto de preceitos anômalos que na prática transmudava-se em anomia.

Os seus ânimos arrefeceram-se, a temperatura ambiente, não.

Retornou, por teimosia, a leitura da Constituição, agora no:

Capítulo II – Dos Direitos Sociais, no Artigo 6o, onde está enunciado:

“São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

Aí foi demais, sofreu uma crise nervosa, acompanhada da solidariedade de uma convulsão incontrolável que o levou a perda total de consciência, produto, agora, de um insulto cerebral.

Um vizinho, imediatamente, ligou para o órgão competente solicitando uma ambulância, relatando a gravidade e a urgência do caso.

Foi conduzido num carro particular, em estado precário, assim como ele, para o único hospital público, pois, a ambulância não viera.

Vagas inexistiam, assim como profissionais de saúde, medicamentos, etc., entretanto, multidões de doentes aguardavam para serem atendidos, circunscritos num espaço exíguo onde a proliferação de vírus e bactérias provocava um engarrafamento na passagem de um corpo doente para outro.

Ficou estirado no chão da emergência por várias horas e quando chamaram seu nome, não houve resposta, apenas, um silêncio fúnebre.

Agora morto fazia companhia e concorrência às letras mortas da Constituição Federal.

Em vida, sarcasticamente, mencionava os ministros do Supremo Tribunal Federal por se vestirem adequadamente, com suas indefectíveis capas pretas, numa demonstração de luto profundo quando das suas interpretações (necropsias) sobre as “peças” da Carta Constitucional.

Trabalhara desde tenra idade, em terras alheias, para prover com os pais, as suas sobrevivências.

Sua carteira profissional era um primor de ausência de mácula, sempre estivera em branco, como translúcido foi a totalidade de seus direitos, com a inevitável exceção, sempre há, exercera o direito à moradia, segundo pesquisa do IBGE, pois, habitava uma palafita.

A Previdência Social com medidas protelatórias não acolheu os seus pleitos de aposentadoria, aumentando o coeficiente de arbítrio do Estado, despojando-o de um direito líquido e certo.

Foi enterrado no local destinado aos indigentes, afinal a lei que estatui que “todos são iguais perante a lei”, pretensamente serve apenas aos vivos (ironias a parte).

Seu corpo foi acomodado num caixão decente e tendo a distinção de uma coroa de flores respeitável, tudo sob as expensas do chefe do tráfico local.

O estado paralelo tem a percepção de que para manter-se no mercado é necessário promover ações afirmativas com as mencionadas acima e, desta forma, agregam os membros da comunidade, através do silêncio e do medo, é claro.

Por onde anda o Estado, além dos descaminhos da corrupção, da desídia, da arbitrariedade, da espoliação, dos desvios de recursos, etc?
Utilizo-me da abreviação acima de et cetera (significa: ‘e as demais coisas’), pois, a lista de indignidades é tão extensa, caso fosse enumerá-las daria uma brochura maior que a Carta Magna, que de magnânimo é apenas, a tutela das castas mais abastadas da sociedade.

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