quinta-feira, 20 de maio de 2010

Insepulto


Produto de um relacionamento fugaz, onde o comércio do sexo ficava situado numa área decadente da cidade que concorria com aqueles corpos disformes e envelhecidos pela vida que levavam pelos excessos de bebidas, drogas e de insônias devastadoras.

A definição de paternidade, acolhida no Código próprio, mas inapropriado para aquela circunstância, pois, o ato sexual praticado fora extremamente rápido, em razão de uma regra explícita, onde o momento de prazer era diretamente proporcional aos recursos disponíveis e os seus eram parcos e foram regiamente pagos sob as vistas insensíveis do cafetão.

Eram dois desconhecidos e assim permaneceram para os restos de seus dias miseráveis.

Por um descuido inaceitável de quem sobrevivia mercadejando seu corpo acabou engravidando e em meses, a sua atividade profissional foi suspensa compulsoriamente, em decorrência do corpo deformado pela gravidez indesejada e repudiada.

Aquele equívoco nasceu sob a repulsa da mãe e acabou abandonado numa entidade religiosa que se ocupava dos refugos humanos.

Sofreu, e muito. Os ideários da ordem religiosa eram meros formalismos para receber recursos de origens estatal e particular.

À medida que cresceu e chegou à adolescência compreendeu o desamor daquela irmandade na sua criação e das demais crianças que por ações e omissões materializam um útero frio de concreto que os repeliam, assim como sua gestação fora um estorvo no ventre materno.

Fugira num momento de descuido com mais dois colegas de infortúnio e as ruas os acolheram e subtraíram deles os possíveis resquícios de humanidade.

Num furto equivocado pela inexistência de rotas alternativas de fuga foi perseguido e acabou atropelado.

Foi a óbito.

Permaneceu por vários dias no Instituto Médico Legal (IML) e após a necropsia, inexistindo quem reclamasse o corpo, o destino era aquela quadra destinada aos indigentes.

Entretanto, uma Faculdade, seguindo os trâmites legais, solicita a anuência dos órgãos competentes à liberação daquele cadáver para ser objeto de estudos pelos alunos da área de saúde.

Encerrando definitivamente a ironia que a vida faculta a muitos, essa não se fez presente na sua pós-morte, pois, na autorização judicial é anexado o seu atestado de óbito.

Foi o único documento sobre aquela curta existência, onde as informações imprecisas maculavam aquele documento que constava, apenas, o pré-nome e nos campos destinados aos nomes dos pais, encontravam-se assentados o vocábulo: desconhecido.

A única informação completa e mesmo assim, de forma sucinta, era a sua causa mortis.

Nunca exercera em vida a inteireza de seus direitos e não seria agora, morto, que o seu corpo se manteria intacto. Acabou esquartejado, transformando-se em diversas peças para estudo, distribuídas em pedras de tamanhos e formas variadas.

A sua alma perambula naquele ambiente e diverte-se com o medo e a repulsa dos alunos novatos, sentindo o respeito que os neófitos devotam àquelas frações humana que um dia foi um corpo com vida, infeliz, na verdade, mas que ela (a alma) convivia, co-habitava, mesmo em completa desarmonia com ele.

Quantos aos alunos antigos, a relação é de uma promiscuidade ímpar, a gozação na manipulação dos órgãos é constante e para homenagear aquele corpo, às vezes furtam uma mão, ou a genitália e colocam na bolsa de uma aluna incauta.

A alma diverte-se com aquelas estripulias, pois, na sua concepção, as traquinagens denotam uma intimidade, uma cumplicidade, com aquele que em vida foi marginalizado e nunca teve instantes de amizades.

Apesar dos poucos anos de convivência, aquela alma tinha plena convicção que numa reversão hipotética do tempo aquele adolescente afirmaria que a vida não vivida era irrelevante diante da sua contribuição atual para humanidade.

A morte que estabelece a finitude de tudo e de todos sofreu um revés inimaginável, pois, a ciência aplicada facultou aquele ser insepulto, reviver na mente e nos corações daqueles estudantes, em razão dos conhecimentos adquiridos de suas frações corpóreas.

Em questão de tempo aqueles estudantes transformariam em profissionais e estariam amenizando sofrimentos e salvando vidas com sua contribuição, mesmo que involuntária.

Transformara-se num doador universal de conhecimento, e isso, seria o bastante, caso pudesse se expressar.

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