
A capacidade de discernimento acabou transformando aquele indivíduo até então, tolerante, em um ser de gênio irascível de primeira grandeza, face às iniqüidades perpetradas contra a humanidade em geral e especificamente contra os seus nacionais, os brasileiros.
A qualidade de seu olhar era diferenciada para as coisas do mundo, não que achasse que a sua era melhor, longe disso, mas admitia que era uma percepção peculiar, própria, embasada num senso crítico mais severo.
Num momento reflexivo sobre as relações humanas, chegou a seguinte e torpe conclusão: o mundo é composto de crápulas, cínicos e de crentes.
Os crentes são os miseráveis, os deserdados da sorte, essa legião de desempregados, de famélicos, de incultos, enfim, os que são manipulados integralmente pelos que exercem os poderes estatais constituídos, pelos mentores das forças cruéis dos mercados, que se locupletam, com a espoliação dessa massa ignara.
Os cínicos são aqueles que conhecem o sistema perverso e suas conseqüências, contudo, calam-se. Abandonam o exercício da reivindicação, e pior, a capacidade de indignação, pois, encontram-se numa zona de conforto em relação aos crentes.
O sistema os acolhe, permitindo uma sobrevivência com certa dignidade, com alguma cidadania, usufruem dos humores do mercado, na medida em que os donos dos mesmos permitem. Possuem algum patrimônio, um nível de escolaridade superior, uma remuneração digna.
Os crápulas são os mandatários e detentores dos mercados financeiros, econômicos, logicamente, com a mídia repercutindo seus feitos e omitidos seus defeitos, e dos poderes (executivo, legislativo e judiciário) nas esferas federal, estadual e municipal, que implementam as ações mais sórdidas, outrora na calada da noite, hoje, diante da certeza monolítica da impunidade, o fazem sob a claridade solar, contra os crentes e os cínicos.
Quando não se omitem (esses oportunista, demagogos), postergam aos seus (des)semelhantes quaisquer direitos, mesmo aqueles que não proporcionariam, nenhuma ameaça aos seus vis interesses.
Baseiam-se na teoria de que, qualquer estímulo aos crentes, podem levá-los a revolta dos justos e aos cínicos, o desejo de mudança de status.
Desvio da regra geral, indubitavelmente, existe.
Tomando conhecimento da tese acima, declaro que fui crente, hoje não passo de um cínico frustrado, pois desejava mesmo, é ser um crápula.
Não me critique por expor o meu defeito moral, afinal, o faço de forma indissimulável.
E você?
Imagem: sem o devido crédito por desconhecer o autor.

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