sábado, 3 de outubro de 2009

O tempo, essa crueldade da natureza!


A velhice começa a desenhar, sem nenhum escrúpulo, marcas no meu corpo, em cega obediência ao tempo. Independentemente de o lapso temporal ter sido vivido com justeza, ou não.

O tempo é inexorável, é rígido em seu curso, alimentando-se da flacidez e da debilidade dos corpos que insistem na dilação da vida.

Com passos trôpegos e incertos, tento dobrar as esquinas da vida que, aliás, nunca foram amistosas, nem na época da vigência de minha juventude.

As vistas, fatigadas de verem indignidades e injustiças ao longo da vida sofrem, agora, o escárnio do tempo, sob a forma da perda de transparência do cristalino (catarata), como estivessem advertindo-me de que, no passado, não deveria ter utilizado de minha visão como testemunha da iniqüidade da vida e, por punição, oferece-me a cegueira progressiva.

Os órgãos tornam-se débeis, quando não cometem uma deslealdade sem precedentes, como minha vesícula, cuja convivência, por cinco décadas, atraiçoou-me com um acúmulo de pedras, como se não fossem suficientes as que deparei no percurso da vida.

Saiu de minha vida abruptamente, mediante uma videolaparoscopia.

O tempo é sádico, diverte-se com o aumento de minha pressão arterial e com a diminuição sanguínea nos corpos cavernosos.

O avanço do tempo cria, por meio de mutações, conforme o antagonismo da frase acima, a transformação do aparelho reprodutor em outro apêndice, inútil como o original.

O único conforto que acompanha o meu cansaço da vida é de que tudo será uma questão de tempo. Quando não existir mais nenhum vivente, o tempo terá tempo para ver quanto velhaco foi, e não terá mais tempo para se redimir.




9 comentários:

  1. Olá Paulo!!!
    Estava com saudades do meu "tempo" para comentar seus textos tão especiais.......rs
    O tempo é bom, no sentido de o encontrarmos e utilizarmos para as coisas boas da vida (amigos, família, aprendizado, "ex-professores"....rs).
    Mas, como em tudo nesta vida há um preço embutido, o tempo já passado acaba sendo um deles...
    Afinal, este texto reflete uma autobiografia?

    Forte Abraço!
    Aline Jandre

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  2. Paulo, eu achei muito triste a forma como você relata a vida vivida até hoje; num país onde a educação é um direito de todos e privilégio de alguns,(os que tem condições financeiras)você superou os obstáculos, e angariou cultura, que muitos almejam mais não conseguem por falta de competência pessoal. Você vive uma vida turbulenta, cheia de acontecimentos com pessoas que lhe são muito queridas, sentindo o desgaste do tempo vivido até hoje; mais você consegue dar a este povo que necessita de você,atenção, conforto,carinho,uma palavra amiga em todo momento da sua vida. Você é detentor de um vasto conhecimento cultural, (riqueza que poucos possuem) que precisa passar para nós através das suas escritas mensais, semanais ou quem sabe diárias.

    Parabéns e muito grato pelo saber!

    Macedo Leal

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Parabéns pelos escritos, afinal os tenho lido e contemplo a beleza da cultura na qual eles se apoiam.
    Gostaria que a eles fossem acrescentados proposições que nos ajudasse a olhar a vida numa égide construtiva.

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  5. Aline,
    Realmente, existe uma parcela significativa de minha vida passada e em curso, no texto.
    O tempo é voraz. Precisamos de sabedoria para aproveitarmos esse passar de vida em convívio mais intenso com os segmentos que você mencionou.
    O único senão que faço (e você o colocou com ironia)é o convivio com ex-professores, esses merecem o desprezo do esquecimento, ainda mais, os ranzinzas.
    Um fortíssimo abraço de seu antigo professor

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  6. Macedo,
    Foi com grata surpresa que li suas ponderações e observações.
    O travo do amargor sobre a vida vivida é inquestionável em minha percepção.
    Tenho o dever, a obrigação de nesses momentos de naufrágio pessoal, cujo significado não é apenas de acidentes no mar, mas o de decadência(no caso,a doença da Eddy) fazer-me presente e tentar estender a mão para transmitir os mais diversos significados de amor, ternura e presença.
    Sabendo, contudo, que esta mesma mão sofre as atrofias do tempo que não segura com a força suficiente e necessária, como desejava que o fôsse.
    Tento, Macedo, mas sempre com o sentimento de que não dei o essencial. Há sempre uma lacuna a ser preenchida, enfim, são as idiossincrasias.
    Quanto a frequência dos textos espero que seja semanais, apesar da ofensa cometida por mim à lingua de Camões.
    Agradeço pela benevolência.
    Um forte abraço

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  7. Rafael,
    Obrigado pelas suas considerações.
    Tento de forma subliminar passar essa mensagem construtiva. Sempre as faço, ou pelo menos, tento.
    Acato sua crítica e tentarei nos próximos textos deixar mais explicítados o que você cobra com justa razão.
    Abraços fortes

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  8. Ah! Paulo!
    Não me interprete mal, não falei com "ironia", muito ao contrário, sempre gostei de manter amizades com meus professores, e com você não seria diferente, pois aprendi muito contigo, apesar de nossos encontros terem sido sempre à noite, horário em que é complicado aprender alguma coisa, certo? Principalmente economia... rs
    Mas, por incrível que pareça, sempre tive as notas mais altas da minha turma em sua disciplina...e meus companheiros sempre me perguntavam como eu conseguia esta proeza! Acredito que, simplesmente, eu conseguia entendê-lo, apesar de o sono fartar-me.
    Sendo assim, não pretendo desprezar nem esquecer os professores que passaram por minha vida, e isto inclui você, acredite!!!

    Forte Abraço

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  9. Aline,
    A ironia é uma arte que poucos dominam e quando a mencionei foi nesse sentido.
    Estudar no período noturno é extremamente sacrificante, pois, senti na própria pele esse desgate quando fazia graduação.
    Quanto a matéria que ministrava sempre tive a noção plena de sua aridez e dificuldades. Por essa e outras razões que procurava utilizar-me das notícias dos jornais dos dias de minha aula, nos 15 minutos iniciais para interpretar os artigos de forma correta, procurando desenvolver o senso crítico de todos. Além de vários exemplos não usuais.
    Fico feliz por sua conduta de não colocar no limbo do esquecimento os seus professores.
    Quanto a minha pessoa, o esquecimento seria natural pelas minhas cobranças, sempre justas, porém, muita das vezes mal interpretadas.
    Abraços

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