segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O maltrapilho

Dia desses, cansado, após cumprir os compromissos firmados, dirigiu-se à praça principal, em busca de um banco para aliviar o cansaço do corpo e, por que não: mitigar o peso da alma.

Aquela sensação fantástica da infância, onde o ar puro; a impressão da inexistência de limites físicos, principalmente, o da praça; a tranqüilidade; a paz, fica presa nas grades que a circundam e, por infelicidade, as outras praças do país.

Naquele horário, o silêncio denunciava o pouco movimento de pessoas, deixando aquele espaço público praticamente vazio; e, por extensão, os bancos.

Deparou-se, para seu espanto, com um indivíduo ao rés do chão, com traje, a rigor, que era um ultraje. Sujo, mas não imundo, o maltrapilho estava absorto na leitura de uma única e misera página de jornal , de temas econômicos.

Ficou estático, um pouco pelo contraste observado, um pouco pelo encantamento da cena.

Abandonando a leitura, perguntou se queria alguma coisa.

As perguntas surgiram de forma avassaladoras, contrastando com as respostas contidas daquele que dobrara a esquina da vida; porém, como percebeu depois, não foi a errada.

Ao apresentar-se como Mayevsky não estendeu a mão, gesto tão comum e automático nas relações humanas. Acostumara-se com as reações dos semelhantes - os outros -, que o viam como um dessemelhante, um mutilado virtual (maneta), em decorrência do asco ou do desprezo que provocava, se não de ambos.

O grau de perplexidade aumentava, à medida que Mayevsky respondia às perguntas formuladas; com um linguajar escorreito, lógico e contextualizado. Imaginava um indivíduo em pleno processo afásico, não aquela afasia por problemas neurológicos, por lesão cerebral (perda do poder de expressão pela fala, pela escrita ou pela sinalização, ou da capacidade de compreensão da palavra escrita ou falada); e, sim, decorrente da lesão social (rejeição, isolamento, incomunicabilidade, etc.).

De forma abrupta, interrompe as respostas e, apontando para um ponto de ônibus próximo, indaga:
- Qual a razão para aqueles dois ônibus, que tem o mesmo ponto de partida e vão para idêntico destino, terem preços tão diferenciados? Não... , não vai dizer que um tem ar-condicionado, e o outro não!

Não esperando a resposta, continuou:
- O sistema capitalista induz às pessoas a auto-precificação. As empresas poderiam oferecer o melhor a todos - sem acréscimos significativos em suas planilhas de custos - contudo, praticam a teoria do medo, da perda. As empresas enviam a seguinte mensagem subliminar:

“Paguem pelo seu bem-estar, ou estarão sujeitos ao desconforto (do calor, das cadeiras duras, da ausência de banheiro) a que a expressiva maioria é submetida”.

As empresas negam, aos mais pobres, um tratamento justo e digno - para dar apenas aos que podem pagar, os mais ricos, um bem universalmente tutelado, qual seja, o da dignidade humana.

Elas, mediante a oferta entre o pior e o melhor serviço estabelecem , com o mecanismo da diferenciação, os seus preços-alvo, conseguindo maximizar seus lucros.

A explanação é interrompida pelo som do celular.

Mayevsky observa o modelo do telefone - último lançamento; e, movimentando a cabeça com sinais de descontentamento, afasta-se, ouvindo o até então interlocutor variar o tom de voz, até chegar aos berros:
- Alô ! Alô ! Alô...

O maltrapilho, com passos largos, segue o seu caminho, interrompendo os sinais (de insatisfação), fazendo concorrência com o modus faciendi (modo de agir) das operadoras de telefonia móvel.
Mayevsky caminhava pensando na cultura da obsolescência programada dos produtos, viabilizada pelas propagandas massivas e eficientes nas diferentes mídias, quando esbarra num transeunte que fica perplexo, tanto pela figura andrajosa , quanto pela frase ouvida:

- É ... o homem nasce vazio e vai-se preenchendo com as informações distorcidas, ou não, do mundo.

E, para quem pretendia apenas descansar, verificara que o caminho do conhecimento era longo, solitário e sofrido.

Enfim, a tranqüilidade desejada o abandonara.

4 comentários:

  1. Foi com um enorme prazer que comecei a ler esta sua crônica; no meio da mesma já estava muito feliz por ter começado a leitura, e ao final, não saberia explicar exatamente quais eram os sentimentos ou as sensações que percorriam a minha mente e o meu coração, pois tudo o que estava escrito era exatamente o que eu sempre pensei: " O sábio é um solitário."
    Eu percebi, há muito, que o conhecimento mais afasta as pessoas do que as aproxima,o conhecedor é sempre posto de lado por falar as verdades que são incovenientes a todos, e se não as fala, o conhecedor já é inconveniente, por simplesmente saber as verdades.
    Talvez por isto, muitos desistem do caminho "longo, solitário e sofrido", segundo suas precisas palavras, que leva ao conhecimento...
    Os que persistem nele são os guerreiros que passam a gostar da solidão, não por opção, mas por serem obrigados a conviver com ela.

    Ganhaste uma fã...

    Um abraço!

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  2. Marcia,
    Fico gratificado pelas seus comentários não apenas, os relacionados com a crônica em si, mas principalmente pelo exercício da maiêutica (a arte de partejar idéias)originária, primeira, da Grécia Antiga.
    Quem convive com a solidão tem a companhia, por mais paradoxal que seja, da qualidade do olhar diferenciado sobre o mundo.
    E tal prática leva os solitários a exaustão física e mental, pois, a sabedoria que permeia esses indivíduos torna-os refratários, aos outros, por iniciativa desses.
    Os solitários são compelidos a seguirem seus caminhos sem fazerem concessões, não por terem gênios irascíveis, apenas pela impossibilidade da existência de diálogos.
    A tirania do mundo esta fundamentada no monólogo e no personalismo.
    O processo monocrômico é uma área de conforto para a maioria,pois, conviver com a pluralidade de cores exige um esforço adicional que poucos querem dispender.
    Reitero meus agradecimentos.
    Um forte abraço.

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  3. Esse texto denota uma situação antagônica em diversos atos da vida corrente das pessoas.
    O preconceito que marca a nossa sociedade leva a mesma a perder outras qualidades de olhares diferenciados.
    Abraços

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  4. Hasta Las Nubes,

    A vida é uma causa perdida, entretanto, assim como fazem os advogados interpondo recursos protelatórios para os seus constituintes, nós fazemos o mesmo.
    Por ações efetivas ou omissões pensadas tentamos achar um significado no processo de viver.
    Abraços

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