sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Gêmeos não univitelinos, um preto e outro branco.


Eram filhos de um casal interracial, a mãe negra e o pai branco, com a fecundação de dois óvulos fertilizados separadamente, gerara crianças de cores diferentes.

O fenômeno é incomum e por essa razão não existem estatísticas oficiais que elucidem suas probabilidades.

A convivência de ambos os meninos já era conflituosa desde aquele espaço restrito, limitado, o útero materno.

Pais de classe média propiciaram aos filhos aquilo que julgavam ser o melhor, uma educação esmerada e um convívio harmonioso.

Contudo, as relações entre os irmãos eram conflituosas, eivadas de discussões e com ameaças nem sempre veladas.

Paulo, o de tez escura era um conciliador por natureza, mas, Marcos de pele clara, olhos azuis, cabelos claros e lisos era um provocador movido pelo ânimo da discórdia.

Paulo sofria do malfadado preconceito de cor, principalmente, na escola, porém, administrava aquela situação de desconforto graças à formação familiar.

Apesar de serem da mesma turma, Marcos, evitava o contato com o irmão.

O tempo com seu desassossego doentio avançava sobre as coisas e os fatos, desalentando uns, iludindo outros e extinguindo a existência de muitos.

Os irmãos chegaram à faculdade pública, em cursos diferentes.

Naquele novo universo de ensino um deles fez uma escolha equivocada, enveredando pelo caminho do vício.

O vício foi um mero rito de passagem para o tráfico de drogas.

No horário previamente acordado dirigiram-se ao estacionamento e antes de chegarem ao carro foram subitamente cercados pela polícia.

O serviço reservado da polícia tinha recebido denúncias anônimas sobre o comércio de drogas na universidade e numa dessas delações foi mencionado o sobrenome de quem praticava o ilícito.

A abordagem não foi civilizada entre as miras das armas. Paulo foi brutalmente espancado e Marcos recebeu uns safanões nada digno de registro.

Levados a delegacia, algemados, os homens da lei não tinham nenhum resquício de dúvidas, Paulo, o negão, era o traficante e Marcos, o branco, o usuário.

Levaram Paulo para uma sala especial e entre perguntas, intermediadas de porradas exigiram dele a confissão, imediata, sobre o tráfico.

O delegado ligara para a casa de Marcos e comunicara que o mesmo estava prestando depoimento como usuário de drogas.

O desespero da mãe ao comunicar ao marido o fato deixou-o mais do que sobressaltado e imediatamente, entrou em contato com um advogado criminal, amigo de longa data.

Encontraram-se na Delegacia.

Foram informados pelo delegado sobre a prisão de Marcos, usuário, e de um crioulo, um desgraçado de um traficante.

Diante dos pais, Marcos em estado de choque não conseguia articular uma mísera palavra.

O carcereiro conduziu o elemento, Paulo, em estado lastimável para o depoimento.

Ao adentrar a sala para depor, seus pais não acreditaram em que suas retinas registraram e essas imagens os perseguiram até os respectivos túmulos.

Aquele trapo humano completamente deformado era seu outro filho.

A privação súbita de sentidos da mãe, a indignação do pai e a intervenção do causídico levaram autoridade policial à compreensão de que uma representação seria interposta junto à Corregedoria de Polícia.

Os processos seguem seus cursos, naturalmente lentos, morosos.

Paulo traumatizado, com a vida destroçada, assistido por profissionais das áreas de psiquiatria e psicologia faz um tratamento longo e penoso, sem a mínima garantia do retorno ao equilíbrio psíquico perdido.

Nos raros momentos que emite parcas palavras, sempre recorrentes, diz:

“Pai, mãe, como é triste sofrer qualquer tipo de preconceito, mas o racial é cruel, pois, os negros são sempre vistos e acusados de serem os únicos protagonistas da delinqüência que permeia a sociedade”.

Em profunda depressão, olha a quantidade de fármacos controlados e complementa:

“Vejam! Aqueles remédios têm tarjas pretas, simplesmente, porque são de alto risco, não convencionais e tem que ser submetidos a um controle extremo. A mensagem é explicita, não é subliminar”.

Definitivamente a humanidade jamais vencerá o preconceito de cor, pois, a lógica das analogias com os fármacos restritos materializa de forma cabal como a sociedade hipócrita e sórdida, vê e rotula os negros.





2 comentários:

  1. Fico muito feliz que esse texto tenha sido produzido por um lucido escritor branco.Perfeito!!!Bom para mostrar para muitos que insistem em dizer que nosso Pais nao tem racismo,que isso e coisa de nossa cabeca,isto e de nos cidadaos pertencentes a raca negra.Cada vez mais esse jovem e inteligentissimo escritor nos surpreende!

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  2. Tâmara,

    Desgraçadamente o preconceito existe e a postura da maioria das pessoas em negá-lo, impede que essa cegueira moral deixe de existir.
    Beijos

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