domingo, 12 de setembro de 2010

É um argumento: Jesus bebia.


Chegou ao mundo sofrendo uma reprimenda, afinal naquele ambiente escuro e agitado pelas contrações acabou ingerindo forçosamente um líquido insuportável, o da placenta. O fato era um complicador para o médico e representou a sua primeira imputação de culpa de uma série delas, ao longo da vida, em que sempre era considerado como agente das ações condenáveis e nunca visto como vítima.

Relembrando o percurso tumultuado de sua existência, identificou que o início de seus acidentes de percursos teve sua gênese num ato inconseqüente de duas figuras inebriadas pelo desejo e pelo álcool.

Rejeitado por ambos, tentou minorar sua situação abandonando aquele ventre com apenas 07 (sete) meses de formação.

Os seus momentos de tranqüilidade foram aqueles desfrutados numa incubadora com o corpo espetado por agulhas e conectado a uma infinidade de fios. Depois ocupou um espaço destinado aos rejeitados sob a tutela do Estado.

A negligência estatal estava materializada pela sujeição vexatória a que foram e são submetidos os desvalidos, esse ente nunca tem culpas e sim, a prerrogativa de desculpas velhacas.

Os anos passados naquele instituto foram de desamparo, de descuido, de ausência de proteção aos mais desprezíveis direitos.

Ao completar a maior idade ocorreu a repetição de seu nascimento. Foi lançado à própria sorte num mundo estranho e não desejado.

Detalhar a sua existência seria um desrespeito a quem nunca fora respeitado. E não serei eu a submetê-lo a mais uma ignomínia.

Alcoólatra foi abduzido por uma igreja de crentes e recebeu uma quantidade infindável de informações bíblicas, acompanhadas por uma série de restrições deduzidas na leitura sagrada por aqueles servos bem intencionados, mas de uma ignorância solar.

Em crises de abstinência ouviu do pastor um sermão em que afirmava que bebida era obra de Satanás. Aí, não prestou. Aquele deserdado da sorte, na medida das suas possibilidades fez uma afirmação definitiva: “Pastor, Jesus Cristo bebia”.

Ao ouvir aquela observação que segundo sua visão míope era uma blasfêmia, uma heresia, já pensava em operar o exorcismo quando teve os seus pensamentos interrompidos com mais uma observação: “Jesus podia transformar a água em suco de tâmara, em groselha, enfim, em qualquer outra beberagem, mas transformou em vinho.”

Dito isso, virou as costas, saiu apressadamente e entrou num boteco. Com a voz e as mãos trêmulas pediu uma água e passados alguns segundos complementou: ardente.

2 comentários:

  1. Finalmente encontro algo para ler durante o trabalho! -V

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  2. Anônimo,

    A conjugação de forças nefastas está conspirando contra você, lamentavelmente.
    O trabalho é um indignidade contra qualquer ser vivente, mas é destino.
    Agora quanto a leitura dos meus textos é uma opção, portanto, interfira onde possa, não leia essas indignidades.
    Abraços

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