quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Lapidação

Morreu por lapidação. O vocábulo que define a morte permite supor que a pessoa era um especialista no ato de facetar e polir pedras preciosas e sofreu um acidente. Não!

Era um mendigo que foi cruelmente assassinado por apedrejamento.

Imagine o suplício dessa morte.

Será noticia na mídia no máximo por três dias, depois esquecimento e um número a mais na estatística.

Morreu como viveu a ultima década, sozinho.

A rejeição à sua figura maltrapilha e fétida não era prerrogativa de um, mas de todos que olhavam aquela triste figura e que jamais viram um ser humano atrás daqueles andrajos.

Era considerado uma coisa, uma aberração.

Todos agem assim por uma única e simples razão. Todos vêem o mendigo como um espelho e essa peça reproduz com nitidez aqueles que o confrontam.

A atitude de repulsa, de náusea, significa na realidade o medo de transformar-se num indigente, também.

Carregamos a miséria humana em nosso interior.

O fantasma da decadência, o medo, persegue a todos sem qualquer distinção.

No dia seguinte à aberração daquela morte continuamos a caminhada de nossas vidas, agindo da mesma forma: ignoramos os maltrapilhos e quando a visão é inevitável, desviamos nossos olhares com repugnância, isso quando não ocorre conjuntamente o pensamento: ”esses desgraçados empesteiam o ar e sujam a imagem da cidade”.

Não existem, lamentavelmente, argumentos contrários à afirmação de que o ser humano é uma causa perdida.

Os sentimentos dignos propalados da espécie humana não passam de falácias, mentiras.
De humanos temos apenas a forma.

Na nossa consciência íntima as forças que nos regem são as das bestas feras relatadas na mitologia ou mencionadas em algum escrito religioso.

Somos, simplesmente, aberração da criação.

A discordância das afirmações acima significa apenas que você jamais teve coragem suficiente para olhar detidamente o espelho que reflete as entranhas do seu interior, do seu ser.  
 



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