sábado, 3 de maio de 2014

A falta de Justiça desse país.

O local era sombrio, o ar saturado e o cheiro de bolor insuportável. A temperatura ambiente não poderia ser outra, desconfortável. Era um local a vista desarmada sem vida.

Os corredores e as escadarias que levavam aquele recinto eram desgastados pelo tempo e a luminosidade sofria de uma opacidade semelhante à visão dos velhos que sofrem de catarata.

Conviviam pacificamente as traças, as aranhas e os ratos que avançavam sobre aquelas pilhas de papeis infindáveis, datados de épocas diversas, mas, principalmente, de tempos idos.

O silencio ecoava naquele lugar, um silencio de revolta, de indignação, de abandono, de desprezo.

Havia meses que um bípede da espécie humana não adentrava naquele lugar, denotando a desimportancia dos que deveriam preservar, desarquivar e dar vida aquelas vidas que pululavam, provavelmente, de raiva, de revolta, não adstrita aqueles maços de papéis amarelados e empoeirados, mas fora.

Entretanto, milhares não poderiam mais expressar seus sentimentos de indignação, pois, encontravam-se no mesmo estado acabado das suas petições esquecidas, dos inquéritos não prosperados, dos seus processos estagnados, estavam mortos.

Aquela situação representava a vilania, a infâmia, enfim, o revés do dever constitucional que o Poder Judiciário deveria exercê-lo.

Naquela montanha de anseios, de desejos, de esperanças, de justiças, não existia um mísero caso de postulante de posse, apenas, a de legiões infindáveis de deserdados da sorte.

Tétrico é saber que aquele local não é um ponto fora da curva, são tantos que acabam tristemente representando a própria curva, a da falta total de Justiça desse país, denominado de Brasil.

O sarcasmo é tamanho, pois, brasil pode ser sinônimo de “semelhante à cor da brasa”, portanto, vermelha, que dentre outras significações é a cor que representa vergonha.

Quanta ironia!

O negro das togas dos magistrados tem, também, significado iníquo, pois, é um símbolo de alerta aos juízes sobre seu sacerdócio. Mais um descalabro ao sistema judiciário, contudo, nossos olhos fatigados de constatarem as injustiças que não tem fim, mas nesse caso nós, os humilhados e massacrados, percebemos claramente que a cor preta utilizada por eles representa o luto pela morte da Justiça 
.
Os fatos não permitem aos calhordas de todos os tempos encontrarem argumentos contrários.

Em síntese, a injustiça é a única Justiça exercida nesse país desgraçado. 

Sempre seremos apenas um espaço geográfico que delimita fronteiras com outros países, onde a falta de justiça, de direitos estão circunscritos, restritos a essas coordenadas geográficas, jamais uma Nação.


2 comentários:

  1. Belo texto, apesar de mostrar a anomalia, a face mutilida de nosso sistema Judiciario.

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  2. Antonio,
    Agradeco pelo comentário sobre o texto. Infelizmente, o nosso Judiciário é precário e, mesmo tendo consciência disso, as autoridades de Poder não fazem nada. Utilizam, apenas da retórica para se justificarem.

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