Os olhos estavam
fixados naquele registro fotográfico que pretensamente perpetuava um casal de
jovens.
A fotografia estava
amparada por uma moldura oval completamente descascada pelas garras do tempo, que
insistia em cumprir a sua obrigação, o seu destino, o de manter aquela imagem em
exposição.
A foto estava
amarelada pelo passar dos anos, mas não o da totalidade dos 60 anos de sua
existência.
Ela começou a
perceber a transformação na cor original da fotografia com menos de cinco anos
de tirada, pois, diariamente a olhava com sentimentos diversos, afinal, o
jovem, futuro marido, morreu de forma estúpida dois dias depois da
imortalização daquele momento.
Não sabia a razão.(culpa
da lignina que junto com a celulose formam os dois componentes
básicos da madeira, matéria-prima do papel. A lignina dentre outras
características escurece ao contato com a luz e o oxigênio, razão pela qual o
papel fica amarelo com o passar do tempo).Seus sentimentos
estavam voltados para o terceiro componente da fotografia, invisível a qualquer
olhar, mas não ao dela: o tempo, aquele tempo aprisionado quando do flash disparado
pela máquina fotográfica.
O tempo, insensível
pela sua natureza sórdida que a todos destrói, num segundo de distração foi
flagrado impassível, indiferente, assistindo o momento de felicidade total
daquele casal.
Aquela fração de
tempo ficou eternizada para sempre.
Ah! os momentos do
tempo... – pensava ela.
O tempo que
presenciou a paixão desmedida dos dois; o tempo que assistiu as poucas dúvidas
e incertezas de ambos; o tempo que foi espectador dos seus sonhos e das poucas
decepções daquela época.
O novo tempo,
posterior à morte de seu noivo, testemunhou a sua decisão que afinal é um
direito inalienável de qualquer indivíduo, a de estabelecer seu próprio centro
do universo, o dela foi de renunciar totalmente à vida, vivendo numa solidão
acompanhada apenas por aquelas lembranças do passado.
A dor diária e
solitária que acompanhava ao longo de 60 anos, parecia mais intensa naquela
manhã cinzenta e chuvosa.
A fotografia agora
estava quase completamente esmaecida, mas não na sua memória.
Dirigiu-se à mesa
da cozinha e sentou-se numa cadeira.
Perplexa, olhou
mais uma vez para a fotografia e apoiou os cotovelos sobre o tampo da mesa e
colando as suas mãos nas frontes, externou em voz alta, de forma precisa e
definitiva, o sentimento de toda uma vida:
“Ô dor danada de cansada,
meu Deus!”.

Olá, Paulo, li o seu texto e gostei muito, uma crônica/conto (isso não tem importância) bem interessante. Sentimos a dor da personagem, o clima, talvez até se perceba a luz da cozinha naquele instante. Palavras simples, sem desperdício, leitura fácil. Bom de ler.
ResponderExcluirParabéns e um abraço.
Carlos Rosa Moreira.
Carlos,
ResponderExcluirAgradeço pelos comentários.
Teimosamente, insisto em escrever, mesmo sabendo da minha inabilidade.
Fico feliz, pois, os sentimentos externados por você ao comentar o texto, foram alguns que perpassaram a minha mente quando escrevia.
Tenha um grande dia,
Paulo Roberto