quarta-feira, 5 de junho de 2013

Aquela dor


Os olhos estavam fixados naquele registro fotográfico que pretensamente perpetuava um casal de jovens.

A fotografia estava amparada por uma moldura oval completamente descascada pelas garras do tempo, que insistia em cumprir a sua obrigação, o seu destino, o de manter aquela imagem em exposição.

A foto estava amarelada pelo passar dos anos, mas não o da totalidade dos 60 anos de sua existência.

Ela começou a perceber a transformação na cor original da fotografia com menos de cinco anos de tirada, pois, diariamente a olhava com sentimentos diversos, afinal, o jovem, futuro marido, morreu de forma estúpida dois dias depois da imortalização daquele momento.

Não sabia a razão.(culpa da lignina que junto com a celulose formam os dois componentes básicos da madeira, matéria-prima do papel. A lignina dentre outras características escurece ao contato com a luz e o oxigênio, razão pela qual o papel fica amarelo com o passar do tempo).Seus sentimentos estavam voltados para o terceiro componente da fotografia, invisível a qualquer olhar, mas não ao dela: o tempo, aquele tempo aprisionado quando do flash disparado pela máquina fotográfica.

O tempo, insensível pela sua natureza sórdida que a todos destrói, num segundo de distração foi flagrado impassível, indiferente, assistindo o momento de felicidade total daquele casal.

Aquela fração de tempo ficou eternizada para sempre.

Ah! os momentos do tempo... – pensava ela.

O tempo que presenciou a paixão desmedida dos dois; o tempo que assistiu as poucas dúvidas e incertezas de ambos; o tempo que foi espectador dos seus sonhos e das poucas decepções daquela época.

O novo tempo, posterior à morte de seu noivo, testemunhou a sua decisão que afinal é um direito inalienável de qualquer indivíduo, a de estabelecer seu próprio centro do universo, o dela foi de renunciar totalmente à vida, vivendo numa solidão acompanhada apenas por aquelas lembranças do passado.

A dor diária e solitária que acompanhava ao longo de 60 anos, parecia mais intensa naquela manhã cinzenta e chuvosa.

A fotografia agora estava quase completamente esmaecida, mas não na sua memória.

Dirigiu-se à mesa da cozinha e sentou-se numa cadeira.

Perplexa, olhou mais uma vez para a fotografia e apoiou os cotovelos sobre o tampo da mesa e colando as suas mãos nas frontes, externou em voz alta, de forma precisa e definitiva, o sentimento de toda uma vida:

Ô dor danada de cansada, meu Deus!”.

 

 

2 comentários:

  1. Olá, Paulo, li o seu texto e gostei muito, uma crônica/conto (isso não tem importância) bem interessante. Sentimos a dor da personagem, o clima, talvez até se perceba a luz da cozinha naquele instante. Palavras simples, sem desperdício, leitura fácil. Bom de ler.
    Parabéns e um abraço.
    Carlos Rosa Moreira.

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  2. Carlos,
    Agradeço pelos comentários.
    Teimosamente, insisto em escrever, mesmo sabendo da minha inabilidade.
    Fico feliz, pois, os sentimentos externados por você ao comentar o texto, foram alguns que perpassaram a minha mente quando escrevia.
    Tenha um grande dia,
    Paulo Roberto

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