Cabisbaixo, quase sem fôlego, retirava-se do local da controvérsia fosse no trabalho, na rua ou em casa, em busca de paz e de argumentos para uma próxima discussão, que à medida que o tempo passava, era sempre mais próxima.
Não... não era louco, um demente. A sua atitude ressentia os seus primeiros 15 anos de vida, onde não conseguia exprimir um mísero som corrente.
Sempre fora objeto de rejeição, de gozações impiedosas nas ruas e, desgraçadamente, também no convívio familiar.
A família, sem posses, bem que tentou nesses serviços públicos que aviltam a dignidade humana, sempre com vagas para atendimento marcadas para meses depois, um tratamento com profissionais de psicologia e fonoaudiologia.
Tudo em vão. Quando cumpriam as datas marcadas, o tempo de atendimento era exíguo e assim, depois de muitas idas e vindas abandonou as idas (não somente as da busca de resolução ou minização do problema que em nome da verdade nunca foi seriamente avaliado, mas pelo esgotamento, pela falta de paciência, pelo excesso do descaso).
Numa dessas trapalhadas do destino, abandonado na solidão do seu quarto, deparou-se com uma revista de seu irmão mais velho, cujo conteúdo era um exemplar de mulheres nuas para todos os gostos e desejos.
Veio uma arritmia, uma sudorese pela visão de uma calipígia que merecera a sensibilidade do editor, em colocá-la na página central da publicação.
Um comichão estranho percorreu a parte inferior do seu corpo, afinal era a primeira vez que via uma mulher desnuda, e apesar de não ser ao vivo era pelo menos a cores.
Aquela reação do organismo ao estímulo externo foi um êxtase menor, subalterno, diante de um arrebatamento muito maior e divinamente prazeroso ao sentir fluir de suas cordas vocais uma fala súbita sem grandes repetições ou prolongamentos, características da sua tartamudez.
Sem aqueles enormes tropeços que caracterizavam a sua falta de fluência verbal, saiu um sonoro:
“Caralho”.
Da situação de tartamudo a posição de prolixo passou-se ainda algum tempo.
Hoje comete o excesso de falar, de discutir com os outros e consigo próprio num tom adequado e com uma dicção perfeita, mas ao ver uma calipígia a gagueira retorna, acompanhada sempre daquela palavra emitida naquela ocasião.
Que coisa! A vida é do ...... (bem, deixa prá lá), mas que é, é.

Nenhum comentário:
Postar um comentário