quinta-feira, 22 de março de 2012

Mudança de uma vida


Chegara ao seu destino nas primeiras horas da manhã, iniciando assim, a sua nova trajetória de vida, diametralmente oposta a vivida.

Achou um hotelzinho que assemelhava em tudo ao seu estado de espírito. O imóvel estava em estado precário.

As regras do estabelecimento, escritas num quadro negro, anunciavam, em seu primeiro tópico, que o pagamento deveria ser efetuado, antecipadamente e em espécie.

Deparou-se com aquilo denominado de quarto. Paredes com infiltração, o cheiro de bolor era quase irrespirável, e o que habitualmente chama-se de cama, não passava de um catre, o que é pior, em estado lastimável.

Pagara um preço maior para ter o direito a um banheiro privativo, parte integrante daquele espaço exíguo, pois, a alternativa para redução do valor cobrado era utilização de banheiro coletivo.

Seguindo o ritual de passagem, previamente estabelecido, dirigira-se a uma instituição financeira, onde cumprindo os rituais de praxe, alugara um cofre, pagando o aluguel de dois anos, antecipadamente, e colocou seus cartões de crédito internacionais, os talões de cheques, passaporte, enfim, todos os documentos que o identificavam como cidadão, perante o Estado, além de sua carteira do Conselho de Medicina.

Toda sua história desaparecera com aquele gesto, tornando-se um pária, aos olhos míopes e severos da sociedade pela ausência de documentos e pelos valores monetários insignificantes que passara a portar.

Adequando-se a nova vida, após caminhar alguns quarteirões indagou sobre a existência de um determinado restaurante próximo, cujo preço era único, o de R$ 1,00 (um real), uma excepcional realização de um governo passado, e seguiu a pé para o endereço indicado, na Central do Brasil.

As filas eram extensas, denotando a quantidade de miseráveis e famélicos que não faziam parte da estatística oficial, por mera desídia do IBGE ou por uma oportuna conveniência do governo federal, ante a divulgação de seus índices de inserção social, sempre maquiados pela hipocrisia e manipulados sob os auspícios da postura de indiferença dos mandatários do país e da eterna ignorância dos mais vulneráveis socialmente.

Intensificara a sua qualidade de observação, atributos fundamentais para o exercício de sua recém abandonada profissão que seria postos à prova diante da visão daquele gueto de desesperanças, de penúrias e abandonos.

Escutava disfarçadamente as conversas daquela legião de famintos que versavam sobre as dificuldades vivenciadas; dos dramas inimagináveis em que eram atores compulsórios; sobre suas revoltas contidas, etc.

Utilizando-se de vocabulários extremamente pobres; ofendendo a gramática; a concordância, enfim, um verdadeiro tumulto vocabular que reproduzia suas vidas, produtos exclusivos do descaso eterno do Estado.

As lágrimas contidas, provocadas por testemunhar a nefasta liturgia daqueles seres marginalizados pela sociedade que com mãos sempre trêmulas, cumpriam o ritual da contagem aflita das moedas.

O pavor de não possuírem a totalidade do valor cobrado para mitigar suas fomes ancestrais que permitiriam um breve conforto às suas entranhas, condenados a uma pirofagia (ardência no estomago) crônica, produto do nada existente de formas sólidas, em seus estômagos, conjugado com excessos de líquidos presentes, pela generosidade dos sucos gástricos produzidos.

Os abastados pagavam e tomavam diversos tipos e sabores de sucos para se fartarem, enquanto os miseráveis recebiam de graça, o gástrico, mas para alimentarem, apenas e tão somente, as suas múltiplas úlceras duodenais.

O seu choro compulsivo e silencioso fora provocado ao assistir a solidariedade vigente entre os míseros, pois, os que não conseguiam o valor necessário eram ajudados por outros deserdados da sorte na complementação do numerário exigido, de forma espontânea e anônima.

Nesse momento percebeu que a vida e as pessoas não eram causas perdidas como acreditava, até aquele momento.

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