domingo, 10 de junho de 2012

Que situação

Não raramente eram objetos de comentários e esses não eram depreciativos, ao contrário, ressaltavam a relação afetuosa de ambos, mesmo após anos de casamento. Em síntese, eram uma referência.
Trabalhavam na mesma empresa, em atividades diversas e em departamentos distintos.
A localização física da empresa era privilegiada, em frente ao mar. A distância era quase irrelevante. Entre a empresa e as ondas da praia havia uns 60 metros a separá-los (uma nesga de areia de uns 20 metros, acrescido de um calçadão e de duas pistas de rolamentos (mão e contramão).
Apesar do estacionamento ser ao lado do seu local de trabalho, caminhava em direção ao prédio da esposa. Às vezes esperava, outras vezes não, e vinham abraçados para pegar o carro e irem almoçar juntos ou retornarem ao lar.
Ele era avaro com as palavras, ela ao contrário, prolixa. Ele sempre com um ar circunspecto, ela irradiando sorrisos. Nas diferenças se completavam.
A saída para o almoço era um congestionamento estúpido de carros.
Ao transpor o último quebra-mola sua atenção foi dirigida para a praia e a visão desfrutada fez seu cérebro entrar em curto-circuito.
O nível de testosterona subiu a um patamar insuportável e os efeitos secundários foram desastrosos, afinal o cérebro ainda não reiniciara as suas funções típicas. Resultado: um dos seus membros inferiores, precisamente, a perna direita que se encontrava flexionada, enrijeceu e o contato abrupto com o pedal do freio foi por muito pouco, um desastre, pois, o carro que vinha atrás quase entrou na traseira do dele.
Com a freada brusca, a esposa deu um berro pelo susto e dirigiu o rosto na direção do marido para questioná-lo e o que viu a deixou estática no primeiro momento.
O marido estava com a cabeça voltada em direção à praia, completamente embasbacado. Contemplava uma visão celestial, para ele, lógico: duas mulheres com seus corpos esculturais esbanjando sensualidade desfilavam nas areias com os seus seios completamente rígidos à mostra (topless).
A esposa, refeita, começou a esmurrar o marido e descarregar uma enxurrada de palavras de baixo calão.
Ele pedia calma, calma e completou com uma frase infeliz para o momento: ”meu bem, afinal o belo é para ser admirado”.
O barulho das buzinas dos carros parados atrás naquele momento eram ensurdecedoras, acrescidos de impropérios que variavam em gênero e grau.
Contrariado, ainda com o olhar voltado para aquelas sereias divinas, passou a primeira marcha e seguiu.
Ouviu mais um protesto choroso da esposa: ”já imaginou se um dos nossos conhecidos viu essa cena? Meu Deus! Que vergonha! Que humilhação!.”
Chegando ao restaurante, de forma preventiva, escolheu um lugar bem afastado e perguntou a esposa o que pretendia comer, antecipando a chegada do garçom.
Nada – respondeu ela. Perdi totalmente a fome.
Quando o garçom chegou e apresentou o cardápio, ele nem abriu e pediu: maminha.
Hein? - indagou o garçom (tinha uma grave deficiência auditiva).
Ele, com um sorriso maroto alterou o volume da voz e disse: MA-MI-NHA.
O garçom pediu suas escusas, responsabilizando o fornecedor e disse que não tinha maminha.
Imediatamente, com o mesmo timbre de voz anterior pediu: CHU-LE-TA.
O garçom assentiu e foi retirar o pedido.
Comeu ouvindo as reclamações da esposa, o choro contido que mesmo assim teimava em molhar seu rosto e encharcar a sua alma.
O retorno ao trabalho ocorreu num silêncio sepulcral.
Ela estava apavorada, com medo de chegar a sua sala e ouvir dos colegas comentários sobre o ocorrido.
Com passos lentos e claudicantes, arrastando a auto-estima ao rés do chão adentrou o recinto, trêmula, deu boa-tarde a todos e foi para sua mesa.
Passados alguns minutos, ouvindo apenas conversas usuais, tranqüilizou-se.
Lembrou de um serviço pendente a ser resolvido no edifício vizinho, pegou a papelada e saiu.
Saltou no 24 andar e dirigiu-se cabisbaixa pensando (”ah! vou ligar para mamãe e dizer que o santinho do genro dela não passa de um santo do pau oco”) e ao término do pensamento deu de encontro com um senhor de cabelos brancos. Pediu desculpas pelo esbarrão.
Por coincidência o choque corporal foi em frente à entrada do setor que viera resolver o problema.
Ele, um cavalheiro, abriu a porta e fez aquele gesto característico para que ela entrasse e depois a seguiu.
Quando ela ia perguntar ao primeiro funcionário sobre quem era o responsável para resolução do problema que trazia, aquele senhor, um gentleman, em alto e bom som convoca todos os colegas a pararem suas atividades para escutarem o que tinha a dizer e começou:
“Prezados, puta que pariu. Na saída do almoço quase que destruo o meu carro na traseira de outro, pois, o tarado do motorista da frente resolveu frear bruscamente seu carro para assistir a exibição de dois travestis na praia. E o pior é que o miserável estava acompanhado de uma mulher, com certeza devia ser a babaca da esposa.”
Ela, ao ouvir aquelas palavras começou com uma tremedeira incontrolável seguida de uma fraqueza anômala e seu último pensamento foi: poxa, se ainda fossem duas mulheres, mas dois travecos... e puf...desmaiou.

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