sábado, 16 de abril de 2011

Vidas, meras vidas


A cena poderia parecer ainda mais desconfortante, caso houvesse uma outra testemunha além do tempo, que contrariando a sua natureza irrequieta, havia parado naquele instante para reverenciar um amor que caminhava em direção ao eterno.

Observava, por uma das janelas daquela sala em penumbra, uma senhora que acomodava em seus braços um ser muito mais fragilizado e alquebrado do que seu corpo devastado pelas atrocidades daquela testemunha ocasional, o tempo.

Com suas mãos tremulas acariciava aquela cabeça que se acomodava em seu peito em busca de refúgio, de proteção, e com extrema ternura movimentava lentamente, em círculos imaginários, os dedos que seguiam o compasso dos murmúrios carinhosos proferidos.


Mesmo com suas retinas fatigadas, os olhares entre ambos transmitiam confianças cristalinas que existem, somente, em cumplicidades definitivas, totais.

Uma corrente de vento, extemporânea, adentra o recinto e provoca uma queda de um objeto.

Por instinto de proteção aquele ser abandona o aconchego e com dificuldades múltiplas procura a origem do barulho. E o faz, tentando inibir o intruso, com a única forma disponível, assim mesmo, precária, pois a agilidade há muito foi destruída pelas artroses.

E a única forma de emitir um mísero latido era encostando-se numa parede, numa pilastra ou em qualquer suporte que sustentasse o seu corpo alquebrado, combalido, para desta forma ter as condições objetivas para emitir os sons característicos da espécie e desta forma, por instinto, além de coagir, saber que ainda vivia.

Voltou com um porta-retrato na boca, agora ferida, pelos estilhaços do vidro que até pouco protegia a imagem de duas jovens abraçadas e felizes.

Deixou na mão estendida daquela senhora, que há pouco o acarinhava, aquele objeto danificado.

Ela, com lágrimas nos olhos, voltou a olhar aquela imagem congelada no tempo, onde as suas expressões e as de sua amada eram de uma felicidade infinda.

Em frações de segundos recordou das amarguras, das incompreensões, enfim, dos preconceitos sofridos.


Viveram juntas até que a sordidez da morte levou a sua companheira de toda uma vida.

Controlou-se, colocando na mesinha do abajur aquela foto, agora não mais em preto e branco, pois, havia o vermelho vivo do sangue do seu cão e o recolocando nos seus braços, pensou:

“Querer reconstituir vidas pretéritas, mediante a visualização de imagem registrada (foto) é uma insânia, comparada, apenas à do tempo”.

Dormiram juntos, provavelmente, sonhando o mesmo sonho.

O sonho em que ambos protegiam-se mutuamente, e cada um, na sua forma, expressava o amor verdadeiro um pelo outro que, certamente, transcenderia a existência terrena – pensou eu.

2 comentários:

  1. O que me irrita em Paulo Roberto,ou melhor neste escritor, e que mesmo escrevendo dessa forma notavel,ainda continua se achando amador.Se amadorismo e escrever de forma ilustre como esse autor o faz eu vou rezar a Deus para ser tao 'amadora' quanto o escritor Paulo.

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  2. Tamara,

    A sua generosidade é imensa, mas o título do blog não é um mero jogo de palavras e, sim, para minha lástima, um cruel verdade.
    Beijos

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