segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um advogado


Vivia amparado numa fé inabalável, inamovível na crença de que a vida e as pessoas tendiam a serem causas perdidas, mas, em contrapartida, tinha uma convicção profunda de que a sua reconciliação com o sono estava contida dentro daquela embalagem circunscrita por uma tarja preta, que abrigava um líquido translúcido de certo ansiolítico.


Exagerava nas doses que acabavam encharcando a sua alma que, felizmente, por ser de outra natureza, não pegava pneumonias e outras mazelas pulmonares.


Entendia a crença dos outros no mundo, mas não as compreendia.


Observava o mundo à vista desarmada de qualquer influência presente (da mídia), mas admitia com certa relutância os pressupostos de um passado remoto que insistiam e persistiam em ficar enraizados em seu conjunto de valores.


Exercia a advocacia criminal há décadas.


Nos tribunais de júri impressionava primeiro, pela figura alta, bonita, mas quase obesa; segundo, pela verve empregada nas defesas. As argumentações eram elaboradas com o primor jurídico dos renomados causídicos, vertidas em tons emocionais para convencer o corpo de jurados da inocência que propalava, ou, na pior das hipóteses, abrandar as cóleras das leis contra seu(s) constituinte(s).


Numa dessas ironias do destino, depara-se com um individuo de constituição física à semelhança dos estivadores, portando uma espécie de faca, e o que é pior, apontando contra ele.


A adrenalina que percorre seu corpo parece acovardada.


O instinto de sobrevivência faz-se presente. Mesmo naquela situação de morte iminente, seu pensamento percorre os ditames jurídicos, onde o direito à vida é uma cláusula pétrea da Lei Maior e imbrica no Código Penal que em determinado artigo, incisos e alíneas, reconhece o direito de legitima defesa a qualquer cidadão, quando a segurança ou direitos dele próprio ou de terceiros estão ameaçados, podendo, inclusive, usar os meios ou instrumentos que tiver disponíveis para isso.


Um mortal qualquer, naquela situação, mesmo conhecedor das leis, jamais relembraria do conceito legal de que uma ação de defesa não pode ser desproporcional à gravidade da ameaça imposta, mas não ele.


Foi um pensamento inócuo, pois, ao reagir, carreou um agravante para ele, e um atenuante para o opositor, pois, não tinha um mísero instrumento para sua defesa, apenas, a cara e a coragem.


O resultado não poderia ser outro.


Aos poucos vai perdendo a consciência, desfalecendo.


A sua mente apaga no meio de um emaranhado de considerações jurídicas que aquele causídico insistia em elaborar naquele momento.


O avançar das horas parece lento e despreocupado naquela noite fria e solitária.


Na terceira hora da madrugada seus músculos começam a reagir de forma acanhada, acompanhada de uma sensação de secura extrema na boca.


Segundos mais tarde, com a vista embaciada, vê o contorno de uma figura humana gigantesca e tem flash de memória sobre o ocorrido e tenta reagir. Mais uma vez, em vão.


Escuta aquele brutamontes proferir as seguintes palavras, em tom ameno e cativante: “Kadu, a operação foi um sucesso e caso não se exceda, como o fez, ao reagir aos efeitos da anestesia geral, amanhã no final da tarde darei a sua alta. Boa-noite”.


Perplexo com a notícia, apesar de não ter atingido um nível respeitável de consciência, tentou, mas não conseguiu proferir o jargão habitual, entre os seus pares: “Doutor, com as devidas vênias, etc etc”.


Dos lábios surgiram simples bocejos. Imediatamente após, dormiu profundamente sob os efeitos remanescentes daquela anestesia de horas atrás.

Nenhum comentário:

Postar um comentário