quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Louco? Ungido? Ou ambos?

Era um indivíduo ungido, embora sem unanimidade. Para uns que professavam correntes religiosas distintas o viam untado por substâncias celestiais, outros, pelos óleos contaminados pela mão encarquilhada do anjo decaído, os ateus e ele próprio, não faziam qualquer juízo de valor por índole e gosto.

Caminhava, retrocedia, adentrava por atalhos duvidosos, mas seguia em frente. E essa atitude não merecia qualquer destaque ou relevância, afinal, andando sempre se chega à beira de um abismo qualquer.

Freqüentava igrejas de orientações e cultos diversos e com sua habilidade inata, na hora da chegada da sacola de dízimos para os adjutórios fixos e extemporâneos, ao invés de depositar, simplesmente, retirava algum. E assim, sobrevivia.

Esse procedimento não causava nenhum prurido de consciência, afinal estava há anos à margem do mercado formal de trabalho e todos os seus esforços foram em vão para reingressar à categoria dos assalariados vilipendiados. Até que um dia aquele pesadelo de perceber um salário mínimo havia desaparecido com as insônias da realidade.

Nas noites de sexta-feira suas andanças tinham destino certo, as encruzilhadas. Renovava seus estoques de bebidas alcoólicas de tipos diversos e de qualidades análogas. Essa disparidade no padrão de qualidade oferecido para suas convicções era algo inadmissível e indignado protestava contra a leniência dos espíritos que deveriam declinar dos pedidos feitos e carregar nas tintas contra essas pessoas avaras, mesquinhas.

Admitia a desigualdade terrestre, mas transpor essa ignomínia para a sociedade dos espíritos era uma afronta odienta.

Na ausência de concordância ou do contraditório às suas considerações, dava de ombros e bebia sofregamente no gargalo e para demonstrar o seu eterno desprezo pela falta de atitude daqueles seres incorpóreos não se dignava nem manter a tradição supersticiosa dos bebuns, a de derramar antes da primeira talagada um gole às entidades pelo sim ou pelo não. Definitivamente, optava pelo não.

Freqüentemente adentrava os terrenos espíritas e independente de suas variantes simulava incorporações imitando os gestos e as entonações características das diversas entidades, mas as suas traquinagens eram voltadas para sua satisfação interior e cinicamente estampava em suas faces o respeito devido.

A vida seguia seu curso natural, com sua atrocidade característica, quando aquele aproveitador de tudo e de todos, caiu num desvão em sua caminhada.

Prostrado num leito hospitalar clamava a presença de um religioso: padre, pastor, espírita, rabino, enfim, qualquer dos representantes de religiões ou seitas, afinal a presença da morte o espreitava.

Nesse momento, a ironia da vida materializou-se na figura de um ateu empedernido que não trouxe o conforto desejado, ao contrário, e aquele indivíduo fragilizado gritou nas possibilidades dos seus pulmões: “Tenha piedade, Senhor! Sou um estelionatário da fé”. E apagou.

Hoje, após a recuperação é um andarilho. Com uma túnica branca, com colares de significados diversos de diversas seitas e religiões, uma bíblia na mão e apoiado num cajado precário, passa o dia pregando.

Invariavelmente escuta: “coitado... não passa de um louco ungido”.

Ele, agora abstêmio, simplesmente continua pregando com as cóleras próprias dos justos e, também, dos desequilibrados. Quem vai saber?


2 comentários:

  1. Paulo foi maravilhoso este texto.
    Tem tudo a ver com a FÈ e seus atributos.
    Paraaabénnsss

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  2. Faria,

    Obrigado pelos comentários.Agora, no tocante a fé, essa é complicada.
    Abraços

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