quarta-feira, 21 de abril de 2010

Case


Pernósticos, aqueles especialistas de renome resolveram transformar o problema apresentado, em um case.

Eram de áreas afins, mas com interesses diversos e convicções inamovíveis.

O objeto da cizânia, antevendo o resultado das sucessivas reuniões agendadas, onde os subprodutos das mesmas, as atas, estariam contaminados pelo único consenso, o dissenso, utilizou-se do único expediente possível, manter-se silente.

Aquela premonição de que a questão não evoluiria, em razão, do desinteresse dos participantes em avançarem nas suas posições era uma situação atípica e sem precedentes nesse mundo conturbado.

Vejam que até no Conclave para escolha do representante do Criador na Terra (e olhem que não é pouca coisa), o Papa, existe, entre os Cardeais, aquela busca incessante de negociarem, de influenciarem aberta ou veladamente na escolha do seu protegido, enfim, conquistam seus objetivos, mediante, o lobby.

Essa sim, ela ponderava, é a denominação correta por falta de vocábulo apropriado na língua portuguesa, e não case que é estudo de caso. Que homens! Que país!

As suas colocações eram objetivas sobre o destino desprezível que a esperava, afinal, sua origem decorria de uma miscigenação exagerada que resultou numa tonalidade e numa aspereza específica em seu corpo, que a diferenciava das demais e, portanto, não seria merecedora de qualquer relevância durante sua existência.

As argumentações sobre a igualdade de oportunidades e da inexistência de restrições aos de sua origem eram, desgraçadamente, meros exercícios retóricos, acobertados pela sordidez dos discursos politicamente corretos, disso ela não tinha a menor dúvida.

Como tudo na vida é questão de tempo, o seu chegou.

Sentiu aqueles dedos pegajosos que exalavam um repugnante cheiro de fumo, pegá-la com indiferença e colocá-la no local apropriado da impressora.

Não teve tempo para protestar. Em segundos, as idiossincrasias de sua existência, concretizaram-se.

O seu corpo foi prostituído por esse texto medíocre e que é o pior, não é o definitivo, pois, a impressão é para facilitar esse pseudo-escriba fazer as correções devidas, as inclusões necessárias, procurando transformar, como fosse possível, um péssimo texto, em mau.

Não refeita de sua indignação, pois, não havia passado mais que três minutos, sentiu-se comprimida, amassada e em pleno vôo livre para chegar à lixeira de recicláveis que avidamente a aguardava, e ainda, pensou:

“As folhas de papéis reciclados são tratadas da mesma forma que os seres humanos deserdados de cidadania, servem para serem manipulados e usados, exclusivamente, em atividades subalternas.”



Nota: todos os documentos oficiais e até os medíocres discursos dos parlamentares brasileiros estão registrados em folhas não recicladas, enquanto isso, o discurso de sustentabilidade do planeta; das derrubadas de árvores;......

2 comentários:

  1. Fala Paulão!!!!
    E aquele texto para Prefeitura, foi aceito?

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  2. Vtrindad,
    Não sei como anda o processo de avaliação dos contos.
    Agora não tenho nenhuma expectativa de uma possível seleção.
    O conto é eivado de críticas atualíssimas, apesar do contexto ser da época imperial.
    Abraços

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