
Destituída dos conhecimentos mais rudimentares da tecnologia do mundo moderno, não por opção, mas por imposição da desídia do governo, desde tempos pretéritos, não avaliava os transtornos que adviriam.
Da mesma forma que não fora consultada sobre o seu nascimento, a morte sem criatividade nenhuma a levara sem qualquer diálogo preliminar.
Os problemas começaram a partir daí. As dificuldades terrenas não assemelhavam em nada, tanto, em intensidade, quanto, na forma, com aquelas apresentadas.
As coisas eram fluidas, os sons inabituais, o tempo de ruptura de sua passagem corpórea para incorpórea foi exíguo, acarretando uma inadequação na sua nova forma de percepção, o que provocou um erro crasso de avaliação, tendo como conseqüência o agravamento daquele estado em que se encontrava que já era precário.
O transporte partiu, deixando-a.
Completamente perdida, como sempre fora na sua vida terrena, procurou por alternativas que sempre eram inviáveis.
Passado algum tempo, começou sentir um incomodo naquilo que na Terra chamava-se de costas e quando tentou explorar aquela região, percebeu que possuía um par de asas, que numa primeira avaliação seria condenada, em qualquer controle de qualidade, mas exceções sempre existem, e por algum descuido, sua memória terrena que deveria estar desativada, lembrou dos produtos made in China.
Sem alternativas e diante de um nevoeiro que se aproximava, resolveu bater asas.
As assimetrias das asas provocavam um vôo grotesco e um esforço adicional, mas sem opções, resolveu explorar aquele espaço que se caracterizava pela ausência de finitude.
Quando suas forças chegavam à exaustão e decidida entregar-se ao destino, agora sim, por decisão própria, entrou numa térmica e planou por um tempo indefinido.
Caso houvesse algum registro de seu estado, indubitavelmente, constataria que era lastimável, não passava de uma alma vadia, combalida e em molambos.
Depois de muito vagar, acabou escutando um som irritante de microfonia.
Para ela, aquela perturbação na transmissão de sinais sonoros, soava como um cântico celestial que gerava paz, mas, fundamentalmente, um fio de esperança.
O problema era aquela cerração pesada que a impedia de qualquer visão, mas seguiu em frente, nos descompassos das asas, orientando-se pela maior intensidade daquele som.
De repente, o som foi interrompido, bruscamente, provocando um silencio assustador.
Não havia passado muito tempo, e antes do desespero apoderar-se dela, ouviu uma voz débil, mas indignada, a clamar aos céus: “Isso é uma dessacralização!”
Apesar de sua ira incontida, lembrou do seu último curso, um MBA em Comunicação, recordando com certa dificuldade dos rudimentos da matéria, afinal, passara com a média mínima, suspeitíssima, por sinal, segundo as línguas viperinas.
Veio, também, à lembrança a estatística sobre o nível educacional, onde a maioria daquelas almas era analfabeta ou semi-alfabetizada, em decorrência do aprendizado em suas vidas terrenas.
As alfabetizadas, na realidade, pouquíssimas, tinham um grave vício de origem.
Muitas eram brasileiras, verdadeiras apedeutas, de fato. Entretanto, suas certificações vinham com a chancela de diversos governos brasileiros que falseavam os dados para não macularem os índices internacionais de desenvolvimento humano.
Aí, aquele Senhor usando das técnicas de comunicação, brandiu novamente:
“Isso é uma dessacralização - é tirar o caráter sagrado do Céu”. (ouve-se, mesmos para os ouvidos moucos, um murmurar na platéia).
E continuou: “Quem terceirizou o serviço de som do Céu?!”, isso é inadmissível, inaceitável.
Afinal, continuou ele, a globalização foi a teoria devastadora que o Coisa Ruim implantou na Terra, e deu no que deu. E, trazem para o Céu?
Indignado, suspendeu o pregão para a entrada naquele território dedicado a presença das almas justas.
Os murmúrios das almas que aguardavam a declaração de seus nomes fizeram concorrência a natimorta microfonia quando aquele Senhor não se fazia mais presente.
A confusão foi total. Os comentários ficam sem registros, pois, decliná-los seriam provas irrefutáveis, contundentes e definitivas que as impediriam adentrar no Céu.
Aquela alma toda estropiada, imunda, maltrapilha que na Terra fora flanelinha, vendedora de balas nos sinais de trânsitos, de flores para turistas, e, quando a situação complicava partia para o furto, não titubeou, e resolveu organizar uma fila quilométrica, que fazia frente aos engarrafamentos paulistanos, convencendo com certa facilidade aquelas almas sobre o retorno daquela medida.
No dia seguinte, aquele Senhor já apresentava um mau-humor matinal dantesco, mas iria informar àquelas almas que não haveria pregão, por ser ponto facultativo no Céu.
Ordenou a abertura dos portões e ao deparar-se com aquela cena celestial, do espanto a felicidade foi questão de milionésimos de segundos terrestres.
Dirigiu-se àquela alma caquética, a primeira da fila e indagou: “Quem operou esse milagre?”
Experiente, ela não demonstrou nenhuma vaidade e afirmou: “Senhor, não foi milagre.”
Empreguei, apenas, um choque de ordem, acompanhada de algumas ameaças veladas. As fiz, por necessidade de manter o devido ordenamento jurídico, entretanto, já pedi o devido perdão. Senhor era necessário.
Um sorriso há muito não visto surgiu nos lábios daquele Senhor que avançava sobre o quinto milênio de idade, segundo alguns Cartórios do Tempo, mas, havia controvérsias.
Revogando sua decisão da inexistência de expediente, chamou aquela alma e determinou que ela apregoasse, naquele dia. E retirou-se.
Alçada àquela função, sua primeira medida foi procurar a sua ficha. Era, totalmente, desabonadora e impeditiva de gozar dos privilégios celestiais. Não titubeou e com jeitinho tipicamente brasileiro, adulterou a mesma.
Ajeitou-se naquele trono e começou a invocar os nomes das almas que teriam acesso à paz celestial.
No dia seguinte, sentado com aquele Senhor de barbas brancas e longas, tomando um laudo café da manhã, colocou-se a disposição para dar consultoria sobre os diversos processos do Céu.
O pior. Aquele Velho anuiu.
O Coisa Ruim que assistia a tudo exasperado, ao perder um digno representante de suas hostes, não titubeou, por vingança, escolheu a próxima pessoa a ocupar a Presidência do Brasil, nas próximas eleições. Quem viver, verá.

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