quarta-feira, 7 de abril de 2010

Um roubo que não cabe no Boletim de Ocorrência


Em passos largos, após, um dia estafante de trabalho, caminhava rumo a casa.

Anoitecia.

Na metade do caminho ela é assaltada e sem esboçar a mínima reação, a não ser a expressão de pânico que a deixa paralisada e muda, recebe uma coronhada nas costas.

A sensação de impotência, a humilhação, a dor lancinante, a indiferença dos transeuntes, a confusão mental, são fatores que a impedem de localizar, imediatamente, a Delegacia, que dista 300 metros do local da agressão, para o devido registro.

É atendida por um policial que mecanicamente faz as indagações de praxe e solicita o relato dos fatos, com uma frieza idêntica a ação do assaltante e confecciona o Boletim de Ocorrência (BO).

A sua dor, a sua impotência, o seu trauma, a indignidade sofrida, resume-se, a meros fatos.

A solidariedade vem de outra vitima de infortúnio que teve o carro furtado, através, do oferecimento do celular para que ela possa tomar as ações junto às instituições bancárias, afinal foram-se os documentos, dinheiro, talão de cheques, cartões de créditos, além, do celular com seus registros pessoais e profissionais.

A adrenalina teima em permanecer absurdamente alta em seu corpo alquebrado e a percorrer sadicamente o seu espírito totalmente atormentado.

Passam-se os minutos de forma silente e com os olhos absortos naquele papel, o BO.

De repente, percebe que o principal roubo não cabe naquele BO, o da coragem.

O desgraçado com aquela agressão covarde, hedionda, subtraiu a sua coragem, pois, o medo assaltou a sua mente e subjugou a sua alma e passou a dominá-la, desde então.

Com o passar dos dias, o medo evolui para o pavor. E esse é o medo que atingiu a maioridade.

Constata que o plano de saúde não cobre consulta na área psicológica.

A situação financeira no limite obriga a gastos extras, via empréstimo bancário com intuito de restaurar a tranqüilidade e o equilíbrio emocional perdido.

As sessões não progridem como o desejado.

O Estado que é omisso na contraprestação de serviços nos hospitais, onde a dor é visível, torna-se completamente ausente, no tratamento da dor sem vestígio aparente, a psicológica.

Sem tratamento, torna-se refém do pavor e a impossibilidade de superar o trauma, acaba demitida.

Certa noite, ao assistir a um telejornal, em rede nacional, em um dos blocos, assiste um representante dos direitos humanos fazer uma defesa apaixonada sobre um determinado caso, em que o preso está sofrendo maus-tratos. Efetivamente é uma indignidade.

Entretanto, uma sensação de náusea surgiu, imediatamente. Não pela argumentação e pela postura ativa do representante dos direitos humanos, em sua defesa irrestrita ao preso, mas, pela inexistência dessa mesma representatividade, na sua defesa e de centenas de outras vítimas.

Naquele momento sentiu um amargor na boca provocada pela indignação de sentir-se duplamente violentada.

Desligou a televisão e chorou.

A sensação de abandono total invadiu o seu ser. O maior bem jurídico que é o direito à vida foi tutelado pelo assaltante, e não pelo Estado.

Entretanto, na hierarquização dos direitos fundamentais, no seu juízo de valor, o segundo, que é direito de ir e vir, foi desgraçadamente violado e pela amostragem de seu comportamento psicótico, jamais será restaurado.

No seu último refúgio seguro, o lar, preste a aumentar o seu inventário de perdas, pelo o atraso no aluguel, faz uma auto-análise, um balanço das perdas e dos ganhos, em decorrência do roubo sofrido:

- Ganhou a indiferença do policial; ganhou dívidas, em decorrência do empréstimo bancário para pagar as consultas do psicólogo; ganhou a frustração de pagar e não ser atendida por um plano de saúde, onde as letras microscopias das cláusulas contratuais a induziram ao erro, de forma deliberada e quem ganhou foi o plano; ganhou um trauma psicológico e dentre outros, ganhou a certeza da indiferença total do Estado para os deserdados da cidadania, o povo.

- Perdeu o equilíbrio emocional; perdeu o emprego; perdeu os projetos de vida; perdeu a paz interior; sem contar outras perdas, pois todas são irrelevantes diante da perda de sua vida.

Foi roubada pelo meliante, furtada pela instituição bancária, através, dos juros abusivos do empréstimo e, também, pelas diminutas letras do contrato de saúde, e estuprada pelo Estado sob a forma de cumplicidade abjeta deste, que dissimula a sua conivência com multas simbólicas, risíveis para com aqueles.

Contudo, esse mesmo Estado é extremamente eficaz e eficiente em subtrair, compulsoriamente, recursos das pessoas físicas (não das jurídicas que repassam a rapinagem aos clientes) sob a égide da carga tributária.

Percebeu, tardiamente, que não era uma vítima una, mas múltipla da desídia do Estado em não oferecer a contraprestação dos tributos como: segurança pública; hospitais dignos; educação; fiscalização eficiente dos mercados; etc.

Hoje, prostitui-se e cheira crack.

Na noite passada, um automóvel pára e o passageiro do banco de trás, convida para um programa.

Aquele rosto não é estranho.

Apesar da falência paulatina dos neurônios, em decorrência da droga, a imagem daquele cliente que a acaricia, retorna de forma nítida,: era o representante dos direitos humanos que defendia o preso contra os maus-tratos, naquela noite pretérita, na televisão.

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