
Os rangidos daquele barco eram os lamentos de uma vida, vivida sem a intensidade desejada.
O tempo percorrido aproximava da contagem de seis décadas, décadas essas, perdidas na sua visão e por mais questionáveis que fossem pelos outros, para ele não fazia a menor diferença, afinal, era a sua vida.
Naquele instante, o seu barco (vida) aproximava de uma enseada, onde as possibilidades das águas abrigadas, talvez pudessem mitigar os prejuízos causados pelas águas encapeladas que o castigaram durante toda a sua vivência.
A tranqüilidade em vias de efetivação não causava nenhum estímulo adicional, ao contrário, apenas aditava acréscimos à sua revolta e à sua indignação, afinal procurara desesperadamente, durante toda a sua existência essa calmaria e os infortúnios sempre o negaram usufruir desse mar de tranqüilidade.
Depois de tantas perdas o que representava agora, no fim de suas forças, a compreensão da vida pela oferta de águas serenas e de ventos brandos e justos?
Lutara incessantemente por condições melhores para a navegação do seu barco e no declínio da vida, onde os danos eram praticamente irreversíveis, qual a serventia de remendos nas velas que rejeitavam, também, em extorquir dos ventos as forças necessárias para ajudá-lo a seguir em frente?
O destino retardatário e empulhador oferecia aquelas águas protegidas quando o senso de proteção não o sensibilizava mais.
Afinal, os consertos nas avarias não poderiam restaurar plenamente os danos provocados ao singrar os mares de toda a sua existência, no máximo, os possíveis reparos seriam cicatrizes expostas que ele recusava ver, por sofrida demais.
No meio daquela pequena baia, onde o resguardar do rigor do tempo fazia-se presente, o seu barco, com as velas recolhidas para não serem tentadas a sugar os ventos que fatalmente o levaria para longe dos desgostos e das penas da vida, já fazia água.
Para ele já era tarde demais.
Num gesto pensado e derradeiro, lançou âncoras.
O intuído não foi utilizá-las para as suas serventias específicas e sim, para adernar o seu barco (da vida), precipitando assim, a chegada do fim.
Naufragou.
Ignorou o instinto de sobrevivência e impassível diante do destino cometeu um único gesto, o de desviar o olhar para que suas retinas registrassem as últimas imagens do crepúsculo solar que assistia indiferente, o ocaso de sua vida.

Não podemos esquecer as cracas que aderem ao costado combalido e apodrecido mas que vivem por conta desse respaldo e transportador de alimento às avessas. Não fora por sua viagem essas cracas aderidas ao casco morreriam cedo pois como não se movem por natureza precisam de quem as leve aos alimentos. Mas o barco não se apercebe de sua presença, nem quando sua velocidade é reduzida e seu desempenho náutico é prejudicado pelo arrasto hidrodinâmico causado por elas. Mas elas tambem sucumbirão junto com o barco quando este deixar de navegar
ResponderExcluirMania de pensar,
ResponderExcluirInvejo o seu conhecimento. Agora, tenho necessidade de fazer um adento sobre as cracas.
Apesar de sobreviverem em decorrência do barco, o seu gesto final não é de agradecimento e sim de sadismo, pois, o condutor ao naufragar tem suas carnes cortadas pelo sadismo das mesmas.
É uma violência despropositada para quem só propiciou a vida (das cracas)e nunca cobrou pela redução da velocidade de cruzeiro.
Caso pudessemos materializar a ingratidão para que servisse de exemplo e estudo para os demais seres humanos, a craca estaria nessa envoltória de vidro em exposição.
Reitero que você deveria escrever para o entretenimento e conhecimento de todos.
Um grande abraço