segunda-feira, 29 de março de 2010

A busca


Introspectivo, assim era visto por todos, exceção feita quando estava na sua faina que não era diária.

Apesar de não ser o equilibrista daquele circo, de décima-quinta categoria, mas, palhaço, procurava superar os desequilíbrios provocados pela mágoa, pela aflição, pelos complexos, utilizando-se de um mecanismo pessoal de proteção contra seus distúrbios emocionais.

Os estudos adquiridos ao longo da vida foram parcos, mas o suficiente para ler e compreender os textos sobre à auto-hipnose.

Tinha a convicção que chegara a meia-idade com uma coletânea significativa de fracassos, e as suas conquistas eram proporcionais a sua altura física, não a moral.

Os cancelamentos dos contratos circenses, nas cidades do interior, passaram a ser freqüentes.

Aproveitando uma dessas fases de suspensão forçada de trabalho procurou um local específico para fazer um retiro espiritual.

Passada uma semana de completa introspecção encontrava-se, agora, sobre o abrigo de uma árvore secular e ao desabrigo da solidariedade humana.

Acabou revivendo detalhes de seu passado que há muito, o tempo havia esmaecido, ou, totalmente apagado de sua mente.

Surgiram imagens de seus pais nos seus franciscanos cotidianos; as suas percepções sobre a vida; as suas idiossincrasias e finalmente, os diálogos sobre aquele ser que viria complementar suas existências, ele.

Ambos falavam que seriam do sexo feminino e as convicções eram definitivas, pois, os parcos recursos eram destinados às primeiras roupinhas, predominantemente, rosas.

As imagens pretéritas começaram a ser entrecortadas, mas as expressões frustradas dos pais ao vê-lo, foram nítidas, contínuas e dolorosamente, lentas.

A saída daquele transe foi acompanhada de uma única lágrima solitária.

Não que seus problemas tivessem sidos resolvidos, apenas, compreendidos.

Fora de seu ambiente de trabalho, onde as crianças gargalhavam felizes com suas palhaçadas, a sua presença diante delas, sem as caracterizações da figura artística, causavam medos, pavores incontidos.

Enfim, o seu aspecto físico era fantasticamente especializado em assustar as crianças, em razão do seu o corpo disforme pelo nanismo.


Quanto aos pequeninos, entediam suas reações, mas a sua dor maior eram com os adultos que o marginalizavam por ser anão, preto e homossexual.

4 comentários:

  1. Coitado do anão!
    Pai, só você mesmo...
    Sensacional!!!
    Beijos.

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  2. Mas recentemente ele pode ter um novo nicho de mercado; haja vista as festas promovidas pelo Imperador Adriano, não o romano - se o era, não o sei, mas o jogador que mesmo ganhando os tubos de dinheiro continua fazendo confusões e levando anões para as suas festas na comunidade

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  3. Paula,

    Complemento a sua frase. Coitado do anão em razão do preconceito que macula as relações humanas.
    Hoje, o carater da pessoa é irrelevante, lastimavelmente.
    Grato pelo elogia.
    Beijos

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  4. Mania de Pensar,

    O importante é a inexistência de preconceitos nas relações humanas.
    Aquela emissora que surgiu graças as benesses da Ditadura, age de forma canhestra, ao colocar o Adriano e Vagner Love como vilões pelo simples fatos de visitarem e divertirem-se nas favelas.
    Esquecem que as misérias existentes nesses locais, decorrem da desídia de diversos governos.
    Em mensagem subliminar a Globo iguala os deserdados da sorte que vivem nesses locais aos traficantes.
    Isso é de uma cretinice ímpar.
    Agora, o anão do texto sentira uma felicidade inigualavel, caso o Imperador (jogador) o convidasse para essas festas.
    Abraços,

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