
Todos os lugares e ocasiões em sua vida sempre foram premidos pela ausência de espaços e solidariedade.
Era insana aquela convivência forçada, em espaço exíguo, junto com seus pares.
As atrocidades verificadas nas celas das delegacias, nos presídios, onde a criatividade por espaços é patente, com colocações de redes para aumentar a área física, além do rodízio forçado, entre os demais, onde uns ficam em pé, imóveis, para permitir o sono dos demais, mesmo assim, essas condições infames não fazem frente a sua situação de desconforto e dos seus assemelhados.
A única solução para conseguirem os espaços desejados era quando uma mão fria e displicente, escolhia aleatoriamente, um dos seus, e o assassinava com o objetivo de ter prazer.
Além daquele sofrimento dantesco da falta de espaço, ele sofria de uma atrofia em seu corpo, um defeito de origem que a esteira da vida o deixou sobreviver impune.
Aquela mão assassina cumpria o ritual, no máximo, duas vezes por dia que representava o limite máximo de seu deleite.
Para os que não eram escolhidos, a catarse que envolvia os seus espíritos tinha seu limite máximo quando das dez primeiras vítimas, a partir daí, o medo desmedido envolvia a todos pelo temor da morte iminente.
O espaço desejado agora era irrelevante e numa análise fria, caso pudessem retroagir no tempo e tivessem o poder de deter aquela mão sinistra que matava em nome de um prazer sórdido, não exitariam e optariam pelo desconforto de viverem quase como irmãos siameses, num aperto descomunal.
Lamentavelmente, desejos não correspondem necessariamente à concretização das vontades.
Na manhã seguinte, após a confabulação dos remanescentes, aquela mão fatídica o escolhe, materializando para ele que probabilidade é a palavra para evento conhecido, certo, a sua escolha, inexistindo a outra vertente, a de eventos incertos, a possibilidade da escolha dos outros.
Não houve espaço para o medo, pois, o gesto foi feito de uma forma automática e ao pegá-lo, imediatamente colocou sua cabeça sobre uma superfície áspera e numa ação ágil fez um movimento brusco.
O resultado foi que seu defeito de fabricação o salvou. Quebrou-se ao meio e durante o percurso, antes de ir de encontro com solo coberto por uma poça d’água, completamente estropiado, ouviu o seguinte impropério:
“Fábrica desgraçada! Que país! Os órgãos competentes (quanta ironia!) não exercem a mínima fiscalização sobre o controle de qualidade dessa e de outros empresas que buscam, apenas, o lucro pelo lucro. Definitivamente, as chamas que iniciam o meu prazer de fumar, jamais, em tempo nenhum, serão provenientes dessa marca de caixa de fósforos”.

Estava conversando, outro dia, com o Polycarpo sobre um museu que tem no Farol da Barra em Salvador, lá tem uns mapas dos navios que traziam escravos África. Não sobrava espaço nem para um anão dormir. Todo espaço era aproveitado. Hoje, nas prisões, não só ocupa-se os espaços do solo como também o aéreo com a colocação de redes, como mensionado no texto. É a triste realidade do que não está bom sempre pode piorar.
ResponderExcluirSds, Valdir
vtrindad,
ResponderExcluirNesse país a falta de espaço é imoral.
Inexiste para qualquer tema que se queira abordar.
Veja que até um miserável palito de fósforos estropiado não tem a dignidade de gozar de um espaço digno, enquanto em vida.
Saudações,
Paulão