sábado, 27 de fevereiro de 2010

A morte e o tempo


O quadro era completamente desolador. Esquálido pelo avanço, inexorável, daquela doença insidiosa que concorria, somente, com marcha do tempo e acompanhado de uma dor lancinante, exclusiva dele, não do tempo, esse é insensível por natureza.

À medida que as dores aumentavam, as suas súplicas pela presença da morte eram ouvidas na mesma intensidade.

A morte por se sentir desejada fazia-se de difícil, de rogada, afinal, jamais aceitara qualquer pedido em sua eterna existência, não era vulgar.

A duração de nossos destinos depende, exclusivamente, dela, entretanto, é a variação de seu humor que determinará como será a intensidade do flagelo, ou não, na passagem.

Nos seus estados de alegria leva suas vítimas, sorrateiramente, sem sofrimento e instantaneamente, entretanto, quando da fase de péssimo humor, produto de sua tristeza, martiriza lentamente os corpos escolhidos, dando vazão integral a sua índole sádica.

Confesso que pode não ser uma grande coisa, mas já é um alento, saber que a desgraçada sofre de transtorno bipolar, tendo mudanças cíclicas de humor e que esses episódios serão imutáveis, ad eternum.

O diabo é que a conseqüência de sua doença recai sobre nós provocando um prejuízo irrecuperável, a perda de nossas vidas.

Entretanto, o desequilíbrio nos seus humores, aniquila eternamente o seu estado de ânimo e seu bem estar-estar psicológico e emocional.

Ah! Isso me causa um prazer indescritível, pois, a sua ação malévola não será nunca mais completa, será sempre privada do orgasmo pleno quando dos seus atos de necrofilias.

Essa maldita transferência das conseqüências de sua doença resvala nos limites da desconsideração do Criador e da falta de respeito para conosco, pois, a portadora da moléstia (a morte) absorve, apenas, as seqüelas mínimas e as conseqüências mortais são sofridas por nós.

O meu prazer, relatado em linhas acima, pode ser interpretado como insignificante frente à magnitude das forças da morte, mas insisto, pode até ser irrelevante, mas, data vênia, a satisfação é minha e, portanto me basta.

No final dos tempos, o tempo terá tempo para verificar a sua sordidez e terá a companhia da morte enlouquecida, em decorrência da crise de identidade motivada pela inexistência de qualquer resquício de vida para subtrair.

E a lei do retorno que é imperiosa tornará o tempo e a morte, não em casais no sentido estrito, mas sentenciados perpetuamente como irmãos xipófagos que vagarão nos espaços siderais, condenados a ouvirem os lamentos recíprocos, oriundos das tempestades de suas insânias, eternamente.

Lamento pela condenação de todos os corpos celestes que gravitam no espaço a conviverem coercitivamente com esses entes enlouquecidos, contudo, é um preço desprezível comparado com os nossos.

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