
Ironias á parte, aqueles indivíduos num passado remoto, desgostavam do carnaval.
Não existia nenhum preconceito, seja de ordem moral ou religiosa, pela aversão deles a festa carnavalesca, era uma mera questão de sobrepor a tranqüilidade à agitação daqueles quatro dias, assim pensavam e agiam.
Os ventos da vida que impulsionam as pessoas a avançarem no desenvolvimento pessoal, cessaram, desgraçadamente, para aqueles três deserdados da sorte.
Aquela calmaria abjeta forçou-os a uma única opção, a abandonarem as águas agitadas, porém, abrigadas da vida, a lançarem-se no mar encapelado da marginalização social.
O processo de mendicância foi lento e sofrido.
Com o tempo vivido nessa desdita, abandonaram os pedidos de esmolas, em razão, das reações que causavam nas pessoas: medo, agressividade e nojo.
Os recipientes que continham os restos dos restaurantes eram mais compreensivos, apesar de desleixados, pois, as misturas em suas entranhas, variavam de teor e conteúdo.
As roupas imundas, assim como seus corpos, tornavam-os dessemelhantes, e muita das vezes, invisíveis pela maioria das pessoas que furtavam suas vistas à realidade.
Com a proximidade daquela festa mundana, segundo as igrejas, entre um gole de cachaça e outro, resolveram abandonar as suas antigas restrições e entrar na folia.
Entretanto, existia uma cláusula pétrea, a de serem tratados como semelhantes.
A questão foi resolvida de forma surpreendente pelo imediatismo da solução.
No dia anterior á festa, foram para um chafariz, à noite, e ficaram imersos durante horas na água e lavaram com esmero suas roupas maltrapilhas.
O intuito não era a limpeza, pela limpeza, e sim, eliminar o mau cheiro que seus corpos e trapos exalavam.
Era natural, apesar da higiene prolongada, que suas peles e roupas guardassem o encardido, em razão da descontinuidade dos banhos e das lavagens quinzenais.
Pronto. Estavam adequadamente fantasiados, com seus trapos e com suas peles encardidas, mas, ao natural.
No primeiro dia de carnaval, no meio daquela multidão de foliões, os três esbaldavam-se.
Brincavam no tradicional bloco de sujos e entre abraços e beijos furtivos, relembraram de um passado que julgavam esquecidos, onde eram tratados como iguais.

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