quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Aversão ao trabalho


Aquele indivíduo era singular.

Tornou-se imediatamente ateu em decorrência de uma única passagem bíblica que representou para ele a maldição das maldições: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto” (Gen 3,19).

A leitura daquela frase nefasta, segundo sua ótica, fez surgir, imediatamente, em sua mente a concretização do atavismo que vem a ser o reaparecimento, em um descendente, no caso ele, de um caráter não presente em seus ascendentes imediatos, mas, sim, em remotos, no caso, seu tataravô.

A imposição da frase, a indisposição de seu tataravô para a labuta, situações tão antagônicas acabou provocando um desconforto imediato em seu ser.

Caso houvesse alguma escala que aferisse o estremecimento na carga genética de um indivíduo, certamente, o imaginário autor desse instrumento de medida ficaria irremediavelmente desqualificado, pois, a resposta à reação sofrida por ele, o tataraneto, excederia em muito o limite da imaginária escala.

O seu tataravô sempre fora seu paredro. Afinal, vivera uma longa existência onde a idéia de trabalhar representava a materialização da insanidade mental e chegara ao fim dos seus dias lúcido, detentor pleno de suas faculdades mentais, segundo seu processo interno de furtar às vistas para a realidade.

Escutara na tenra idade uma frase que o marcara para sempre: “Quem não puxa os seus, vira monstro”.

Era inaceitável para ele ser portador de uma conformação anômala, qual seja, ter que trabalhar.

Estava preste a completar 49 anos e suas forças e sua capacidade inata, congênita, dirigida ao ócio começava apresentar sinais de cansaço.

A sua única e última fonte de renda acabara de extinguir-se. O estresse acumulado pelo exercício da vida, principalmente, o causado para manter o padrão de vida, levou aquela mulher ao implante de duas pontes de safenas que, em meses, ruíram.

As mortes, física dela e a psicológica dele, levou-o à beira de um colapso nervoso.

A fatalidade dele foi procurar o sistema público de saúde, onde um médico neófito prescreveu uma droga controlada para venda, mas não os seus efeitos colaterais.

Resultado: para quem estava à beira do precipício, o fármaco de tarja preta, o fez dar o passo fatal para o fundo do abismo da insanidade.

Ao vê-lo vagar naquele hospício, a que foi encaminhado, um olhar mais atento constatará nos seus lábios um leve traço de escárnio que traduz o seu pensamento, mediante, os impulsos de seus parcos neurônios incólumes:

“ Apesar das adversidades impostas pela vida, jamais, em tempo algum, declinei do dever de cumprir o contrato firmado de jamais trabalhar. Afinal, acordos devem ser cumpridos e foram”.

Em um raro momento de lucidez, observa a folhinha do calendário em que está registrado o dia primeiro de maio, dia de seu aniversário e por uma dessas ironias da vida é, também, dedicada ao dia do trabalho.


Nota: por desconhecer o autor da foto não dou o devido crédito.

2 comentários:

  1. Uma existência privilegiada a desse senhor que se dedicou de corpo e alma ao ócio. São nestes momentos que me pego imperfeito e cedo ao sentimento puro da mais pura inveja querendo ser, já que não o fui até agora, o mais parecido com o amigo ocioso que aniversaria no dia do trabalho. Aliás, uma amigo meu, um daqueles que usa algo na cabeça para nunca esquecer que existe alguém ou algo acima dele, me diz que o trabalho não deve ser prazeiroso pois senão a gente não ganha dinheiro. Hobby sim, deve ser prazeiroso...
    Saudações do amigo

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  2. Mania de Pensar,

    Não se abata por trabalhar. Somos, miseralmente, humanos.
    Afinal, Deus que é onipotente, onipresente e onisciente (e, olha que não é pouca coisa), errou. Afinal,foi um distraído, para não chamá-lo de relapso, ao criar o mundo dessa forma e com essas consequências.
    Somente, aqueles sujeitos superiores que tem a percepção de que a vida é uma causa perdida, não trabalham. Pagam o preço ao serem taxados de loucos, pelos normais (que somos nós - quanta ironia), mas vivem, e ouso afirmar que vivem melhor do que nós.
    O duro não é cometer o erro de trabalhar, mas o de nascer no dia do trabalho.
    Abraços do seu amigo.

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