
Era uma figura que transcendia os limites possíveis da compreensão humana, vista sob a qualidade do olhar comum, o da superficialidade, que permeia e desqualifica a nossa sociedade.
Os equívocos, atribuídos àquele indivíduo pelos demais, eram equivalentes à sua ambigüidade em relação à vida, aos seus amigos e possíveis desafetos.
Sofria de uma fadiga crônica, ancestral.
Era resultado de uma genética desqualificada, que o compelia a abominar aquela passagem bíblica imperativa de que o homem há de comer o pão com o suor do próprio rosto.
Não! – exclamava ele, e perorava:
- Essa maldição bíblica é a maior das ofensas com que o ser humano pode conviver!
Afinal, quem compartilhava de sua presença sabia que o conteúdo daquela frase era totalmente contrário à sua doutrina de vida, ao seu conjunto de princípios, às suas normas de conduta.
Atribuía o aperfeiçoamento do trabalho, com suas características escravagistas (para o empregado), tido como a maior e mais refinada forma de tortura, ao antigo Tribunal Eclesiástico, e olhe que a Santa Inquisição era pródiga na arte do suplício e dos tormentos atrozes.
Sentia-se duplamente amaldiçoado. Primeiro, pelo ditame daquele livro, sagrado para muitos e, segundo, por ser um ateu convicto.
Quando abordava esse tema da dupla condenação seus lábios, pálidos de ódio, faziam companhia irrestrita aos seus olhos, que se moviam de forma pendular. Quando os globos oculares iam num sentido, ao mencionar a palavra “Bíblia”, dizia: - “isso dá fadiga”; e quando iam à direção oposta, para sustentar seu ateísmo, replicava: - “Ah! tô com fadiga”.
Não suportando a pressão do trabalho e suas demais mazelas, entrou num processo depressivo avassalador.
A sua postura silente, no local de trabalho, preocupava aos demais colegas de infortúnio, acostumados com suas expressões: - “Tomara que chova", logo ao final do expediente de sexta-feira,
ou: - "Desejo todo ódio do mundo para vocês" , quando percebia qualquer gesto de solidariedade.
E assim seguia sua labuta, entre grosserias e blasfêmias.
Fadigado da vida, do trabalho, dos semelhantes, do psiquiatra, dos fármacos de tarjas negras, resolveu procurar um retiro espiritual, exercendo um dos seus predicados, a capacidade de discordar e de contrariar a si próprio.
Após uma semana de reflexão, deparou-se com um maltrapilho enfermiço, com os olhos embaciados e voz débil, que sentenciou:
“Sou, ou melhor, era seu anjo da guarda. A sua fadiga crônica era resultado do esforço empreendido pelas forças que o impeliam para uma evolução capitalista contra as que queriam mantê-lo num estágio inferior, a de empregado. Não tenho autorização superior para acompanhá-lo nessa sua nova caminhada.
Siga, mas leve os meus mais odientos protestos, pois, compartilhar o seu corpo e suas idiossincrasias foi um carma muito pesado para mim. Adeus, e leve consigo o meu eterno desprezo.”
Um sorriso largo tomou aquele rosto, agora, cheio de vida e de esperança, e ouviu-se dele, a seguinte dicção:
“Sabia que no fundo era um rapaz disposto e empreendedor. A minha propensão a letargia não era física, como ficou comprovado pela confissão daquele anjo-da-guarda incompetente. Que fadiga...”.
Sem cerimônia, deitou-se esfalfado, fatigado, e dormiu o sono dos justos.
Enquanto isso, o novo anjo da guarda com ar indolente, lento no movimento de suas asas, espreguiçava-se, aguardando o despertar daquele ser, para assim, poder coabitá-lo.
No dia seguinte, dirigiu-se ao departamento de pessoal e pediu as contas, em caráter irrevogável e irretratável.
Sem condições objetivas para vencer a maldição bíblica, afinal podia ser tudo, menos burro, resolveu transformar-se em empresário.
Hoje, explora todos seus empregados, sem os menores escrúpulos e, quando questionado, toda a sua argumentação sobre o sistema capitalista esta fundamentada naquela, outrora indigna, frase bíblica.
A constatação dos lucros abusivos, conseguidos pelos suores alheios, é acompanhada de uma única expressão:
- “Isso dá uma fadiga ...”
Crédito: por desconhecer o autor da foto não atribuo o devido crédito.

Paulão, voce estava sentido "vibrações" quando escreveu o referido texto.
ResponderExcluirZKeller
Keller,
ResponderExcluirAs malditas vibrações deveriam fazer parte do texto, mas a fadiga de meu cerebro não permitiu a lembrança da expressão.
Imagine a situação do personagem, em razão dos movimentos lentos das asas de seu novo anjo-da-guarda, sentirá ira, indignação, menos vibrações.
Abraços
Você usa o termo fatigado e fadigado no mesmo texto. Qual o certo?
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