
Chegou com a esposa no restaurante e o cardápio foi imediatamente apresentado. Solicitou uma cerveja em lata, de uma marca específica, e uma garrafa de água mineral, sem declinar o fabricante, observando apenas que deveria ser sem gás.
A conversa girava sobre qual tipo de comida iriam escolher, quando o garçom trouxe o pedido.
Um desconforto surgiu nele. Era um sujeito complicado, além de ter um gênio iracundo.
Começou a discorrer, para a esposa, sobre o absurdo dos países subdesenvolvidos (o termo emergente, para ele, era eufemismo) aceitarem a transferência dessas empresas produtoras de alumínio, que migravam de seus países de origem, os de primeiro mundo, para os mais pobres.
A mulher ia esboçar uma pergunta, mas foi abruptamente cortada, com a indignação do marido.
Olha, continuava ele, a produção de alumínio é eletro-intensiva, isto é: - o consumo de energia elétrica é imenso. No custo de produção do alumínio, o gasto com energia representa 50% do total!
O consumo de energia, de somente uma dessas empresas, equivale ao de uma cidade de 90 a 100 mil habitantes.
Isso é um despropósito! Estamos, no fundo, exportando as águas de nossos rios, para a preservação dos cursos d’água dos países de primeiro mundo e permitindo, também, a ausência de danos ambientais naquelas regiões.
Mas como? – indaga a esposa.
Simples, muito simples! – responde ele, e continua: – a matriz energética, no Brasil, é preponderantemente proveniente das hidrelétricas. Ora, para isso precisamos fazer barragens. Com isso, inundamos florestas, vastas extensões de áreas, destruímos as margens dos rios, submergimos cidades ribeirinhas, alteramos o meio-ambiente em todas as suas diversidades, além de expulsarmos os moradores de seus locais de origem, provavelmente para as grandes cidades, onde vão morar em favelas. Nada disso é mensurado!
O pior é que esses custos não são contabilizados e, portanto, não são repassados, através dos preços cobrados a essas empresas. E tem mais:
- evidencia a política governamental perversa, pois essa energia deveria ser levada para moradores de áreas mais isoladas, sem acesso a esse bem importante. Percebeu o custo adicional, o social?
Privilegiamos o primeiro mundo, cometendo mais uma injustiça social com os nossos necessitados.
A esposa, para amenizar a indignação do marido, diz: - pelo menos, não temos o mesmo problema com a água mineral.
Ao ouvir o comentário, ele quase entra num processo apoplético.
Veja a marca dessa água! É de uma famosa multinacional suíça. Pense bem:
- A água mineral sai das entranhas de nossas terras, e o que essa empresa, faz? - simplesmente engarrafa-a, e pagamos royalties por isso. Somente um país subdesenvolvido permite essa ignomínia!
Na década de 70 do século passado, as águas minerais mais consumidas no Brasil eram a Lindóia e a Caxambu. De repente, no famoso e nefasto telejornal noturno, veicula-se a notícia sobre suspeitas de que as mesmas estavam contaminadas.
Resultado: - após o contraditório dos diretores das empresas aludidas, as águas são submetidas a análises, no Instituto Adolfo Lutz. O laudo sai em duas semanas, informando sobre a inexistência de contaminação. Entretanto, nesse intervalo, uma massiva propaganda da água Minalba entra na mídia. E aquela marca conquista parcela significativa do mercado.
Teria sido mera coincidência?
Quando o garçom se aproxima para indagar sobre a escolha do casal, a esposa, tensa, pede a conta.
Não sei se motivada pela indignidade dos homens públicos do país, em permitir esses crimes de lesa-pátria, associado ao hábito do marido em questionar determinadas ações governamentais ou, por outra característica do seu cônjuge, de externar pensamentos inadequados em momentos impróprios, o fato é que seu desejo de usufruir daquele almoço foi banido, assim como sua esperança no Brasil.

E a Vale, fala da Vale... vai... conta da Vale
ResponderExcluirSe não... não vale!
Mania de Pensar,
ResponderExcluirNão aceitarei a sua provocação.
O processo da Vale resume-se numa única expressão em desuso: "foi um tombo na catacumba" (logicamente, para o povo).
Vale o lamento de inexistir homens decentes nessa terra brasilis.
Abraços,