quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma vida errática


O caminhar era claudicante, apoiado numa bengala para suportar o peso do corpo que, aliás, já prenunciava as marcas inexoráveis do tempo.

Seguia sozinho. A incerteza de que rumo tomar contrastava com a convicção ditada por sua consciência, que se expressava com uma voz clara mas arfante, conseqüência de uma obesidade mórbida. Morbidez alimentada, sofregamente, pelas as ações indignas e aviltantes daquele indivíduo, desgastado fisicamente.

O ser caminhante ignorou-a, como sempre fizera ao longo de sua existência.

Os transeuntes, seguindo seus destinos, não perceberam o indivíduo, que contraia os músculos da face, reflexo da dor que invadia seu corpo e materializando, assim, por ironia do destino, uma desforra da vida, pois aquela pessoa sempre desprezou a humanidade.

Para ser justo, sua atenção com os outros era baseada em suas aparências, que significavam, em sua opinião ou juízo, a possibilidade de usufruir da posição social dessas potenciais vítimas para locupletar-se.

Acumulou patrimônio, utilizando-se da exploração impiedosa de seus (des)semelhantes, negando-lhes os mais comezinhos direitos e atuando à margem da lei.

A bem da verdade, suas atividades não eram acolhidas no Código Penal, eram fundamentadas na legalidade. Entretanto, o modo de gerir é que era eivado de vícios iníquos.

Utilizando-se da ignorância e das necessidades prementes das pessoas, espoliava-as, negociando sempre a preços vis. Qualquer indivíduo, com mínimo de humanidade, se sentiria constrangido, usurpador da dignidade alheia, negociando naquelas bases.

Contudo, ele deleitava-se com o lucro desmedido que a transação proporcionava.

Era só, nunca tivera amigos, somente lapsos exíguos de amizade.

A sua alma, fatigada e impotente, questionava que desvio havia cometido, por ser condenada a partilhar aquele corpo que, de humano, só tinha a forma.

Fracassada na sua missão a alma, embora não tenha realidade física ou material, percebeu uma lágrima solitária percorrer sua parte incorpórea. Surpresa, percebeu que o Ser Supremo, com esse gesto, a redimia, pois aquele ser, que caminhava trôpego e errático, era uma causa perdida.

4 comentários:

  1. Por mais vitoriosos que nos sintamos, por mais felizes que parecemos, por mais saudáveis que estivermos sempre existira dentro de nós o SER TRÕPEGO. Esta entidade que pode nunca se materializar por completo sempre, por vez e outra, emerge de nosso âmago e assume seu papel nessa vida, na nossa pele. Parabéns pela sua visão especial para identificá-lo tão perfeitamente.

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  2. Jorge Luiz,

    Você não pode avaliar a satisfação de receber suas considerações profundas que merecem um texto. Na minha visão míope procurei ver a vileza de certos seres, ditos, humanos.
    Agradeço pela generosidade que, aliás, é uma marca indelével sua, em parabenizar-me.
    Agora, quanto quem vem a ser o apedeuta, confesso sem nenhum escrúpulo, sou eu.
    Esse indivíduo ignorante sobre a vida e sem a instrução desejada.
    Um forte abraço, do seu amigo

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  3. Tenho lido os textos aqui contidos e quero deixar registrado minha total concordância em relação àqueles que apresentam de forma contundente a realidade de nosso ( nem tanto)torrão. Tenho aproveitado dessa oportunidade que voce nos oferece repassando a todos os meus contatos na esperança que esses o façam também e assim consigamos atingir um número significativo de conhecedores desse seu trabalho e alcance muitos formadores de opinião propiciando a conscientização de um contingente que permita uma mudança nesse caos em que vivemos.
    Minhas mais sinceras congratulações por essa sua iniciativa . Abraço . Elias

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