segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma mente brilhante


Ambos achavam que tinham direito a ter razão.

As relações, que foram íntimas na origem do pó dos tempos, deixaram de ser cordiais, num passado imemorial. Hoje, ultrapassavam as raias do bom senso, seja lá o que isso venha a significar. (Aqui cabe uma observação: - pode ser ranzinzice, atribua àquilo que melhor lhe convier, mas sempre cismei com a adjetivação desnecessária).

O diálogo mantinha-se áspero, virulento, onde as pretensas ironias não passavam de meros deboches, eivadas de grosserias que desqualificavam a ambos. O exercício da ironia é prerrogativa, atributo, de seres inteligentes o que, evidentemente, não eram.

Efetivamente aqui, prezado leitor, não cabe o benefício da dúvida, pois ambos partejavam, de forma mútua, o produto, o rebento de uma incultura solar.

Jamais teriam a capacidade de estabelecer o contraditório, face à afirmativa acima, pois desconheciam Sócrates e, portanto, não poderiam avocar, em suas defesas, o artifício da ironia socrática, método desenvolvido pelo filósofo e que levava o interlocutor ao reconhecimento da sua própria ignorância.

O diabo, não fugindo de suas características, amparado em um diagnóstico precoce de bipolaridade, com um mau-humor extremado, diz:
“Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa”.

Colérico, aliás reação inimaginável para aqueles que rezam em sua cartilha, Deus, com os olhos esbugalhados e rútilos, responde:
“Canalha! Engula - e disse de forma peremptória - a sua blasfêmia!”

Para minha surpresa que acompanhava a cena e, prejulgo, também para Deus, o diabo transmuta-se num ser sereno, sóbrio e, numa modulação de voz civilizada, diz:

“- Somos produtos do inconsciente coletivo, derivados de uma mente brilhante que, diante da insensatez da vida, da consciência da mortalidade, criou-nos, com a finalidade de que a insânia não prosperasse e de que a esperança permeasse as vidas”.

Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.

Confesso que, como testemunha, um extremo desconforto apoderou-se de mim.

Reflexivo, Deus dirigiu-se ao seu interlocutor:

“- Confesso que a depressão, que me acompanhava há séculos, decorria de uma crise de identidade atroz. As energias emanadas dos seres humanos, pelo aludido inconsciente coletivo, propiciou a nossa existência incorpórea, com os atributos específicos para cada um de nós.
As virtudes a mim atribuídas levaram-me à soberba, ao orgulho excessivo, à arrogância. Entranharam-se em mim de tal forma, que os via como predicados.
Que disparate, que despautério.”

O diabo, que ouvia atentamente as idiossincrasias de Deus, de forma sóbria e austera, fez a seguinte ponderação:

“- No fundo, somos gêmeos univitelinos, gerados daquela mente talentosa. Na modelagem conceitual preestabelecida, os nossos atributos teriam que ser mutuamente excludentes. A parte que me coube foi a dos baixos costumes. Veja bem, nos dicionários sou definido como ‘príncipe das trevas, espírito maligno, gênio do mal, pai da mentira, serpente maldita’, et cetera.”

Ficaram silentes, reflexivos.

O silêncio foi quebrado por Deus:

“- É verdade que, em nosso nome, diversas e imensas atrocidades foram perpetradas, e ainda o são. Entretanto, numa visão histórica das relações humanas, a nossa criação cerceou atitudes, refreou espíritos e, apesar de nossa existência persistir no inconsciente geral, o mundo perpetua iniqüidades. Sem o nosso simbolismo, seria o caos!”

Num impulso mútuo, abraçaram-se fraternalmente, como nunca fizeram. As lágrimas cobriam suas faces, sabendo que a separação era premente e definitiva.

Compreenderam que seus destinos estavam inapelavelmente traçados por aquele intelecto privilegiado. Agora, sem as perplexidades vividas, até aquele momento, por ambos. A sabedoria fluiu e preencheu as lacunas, até então existentes naqueles apedeutas.

Uma invenção inimaginável, inconsistente, transmitida, a princípio, pela tradição oral, encorpou-se e gerou, do nada, pela força do inconsciente coletivo, a criação desses entes, que tinham que cumprir os desígnios previamente estabelecidos.

E, tacitamente, cumpriram e cumprem. Afinal, obrigação é obrigação!








9 comentários:

  1. Fiquei sem saber se chorava de rir ou simplesmente ficava de boca aberta...Reflexão feita com criatividade...Parabéns!!

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  2. Lilian,
    Estou numa fase que não sei, se sou eu ou o outro e ai saí um texto desse.
    Creio que aqueles entes mencionados foram criados, efetivamente, pelo inconsciente coletivo.
    E passaram a existir.
    É uma mera reflexão de um esclerosado.
    Obrigado.
    Beijos

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  3. Hahahaha
    Esclerosado é que não percebe o que o inconsciente coletivo faz, muitas vezes levando a crueldades...

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  4. Lilian,

    Realmente, o inconsciente coletivo é gerado, ou imposto, atualmente, a partir de uma pre-deformação da mídia, que atende os seus interesses iníquos.
    Somos compelidos a fazer a nossa parte: defendendo o diabo, acusando Deus,e em outros momentos, fazendo o inverso.

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  5. Paulão, foi melhor do que o desenho do cão pasto e do lobo, que viamos quando criança, no qual, antes e depois do apito que dava início à jornada de trabalho se abraçavam, mas dentor do horário de trabalho se degradiavam..... Afinal, como vc disse, obrigação é obrigação....-rs.....

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  6. Jocasempre,
    Realmente esta dicotomia entre o lazer e o trabalho são extensivas a todas as situações sejam terrenas ou aquelas vinculadas ao sobrenatural.
    Temos que cumprir o que nos foi imposto ou que assumimos de forma espontânea, sempre fazendo vir à lembrança de que obrigação é obrigação.
    Forte abraço,

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  7. É uma percepção diferenciada sobre essas duas entidades que provocam situações tão díspares.
    O inconsciente coletivo provoca uma série de forças que atuam no nosso cotidiano.
    Saudações,

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  8. Hasta Las Nubes,

    Realmente é uma visão diferenciada.
    Essas entidades sofrem de uma negligência solar, caso efetivamente fosse detentores de algum poder.
    O melhor é conviver com as idiossincrasias.
    Abraços

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